AS CONFISSÕES D'OL I M PO DES C O M PA S S A D O

Por Hades ou Zeus, eu peço perdão
Talvez por ter sido tolo até então.
Querendo a minha prosa o Luar ou não,
Seja bem-vindo, caro mortal, à este limbo de podridão.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Testamento de uma primavera sem gérmen

Há alguns dias - ou semanas - atrás eu redigi um juramento, prometendo à tudo e à todos que desistiria de querer alcançar o Luar. De nada adiantou...
Bem, aqui está:


A Pequena Obra do Basta


Dedicada ao papel,
lar da minha poesia.

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I

- DEDICATÓRIA –

Passagem primeira – Monólogo direcionado às entranhas do autor – Consideração inicial.

E então, minhas entranhas que se contorcem pelos movimentos musculares que lapidam estes escritos, devo lhes dizer que dedicarei esta última obra – pois técnica e cor meus verbos têm – única e exclusivamente ao papel. Papel amigo, irmão de seiva. Pobre e simétrica forma que inveja a vida oblíqua e sem margens da identidade humana. Pobre chapa flexível, frágil, barulhenta, perfurada, deformada, violada, machucada, sequelada. Exímia tela provisória – ou permanente, dependendo das intenções do artista – que tem a metamorfose em sua essência. Doce planície breve como meu amor, por favor, pela dor, sem pudor nem odor, aceite minhas pinceladas poéticas em tua escorregadia, ligeira e caucasiana pele.

Papel, filho da celulose e da lâmina; filho da natura e do homem em sua mais voraz e agressiva estância; pai das minhas escrituras; lar dos meus afagos poéticos, que agora se tornam suspiros aliviados por um compromisso firmado.

Dedico, então, todas as minhas dores, alívios, pesos, idéias, essências, sedas, jóias, sorrisos, lágrimas agridoces, adjetivos esgotados e grafias filhos desta efêmera paixão engendrada por Baco e dissolvida por Apolo ou criada por Apolo e desnaturada por Baco, ao papel.


II

- JURAMENTO -

Evocação – Bênção – Palavra – Honra – Sintaxe.

Por todas as padroeiras que um dia me protegeram; pelas bênçãos olímpicas que um dia me abençoaram; pelas bravas encostas lusitanas que inspiram minha escrita; pelas flores frágeis de cristal fosco que se estilhaçam no desabrochar desta dura primavera; pela própria primavera, que enche meus pulmões de pólen divino e reluzente; por todos os meus deuses, filhos do Caos; por todos os titãs sujos de pólvora e enxofre que circundam as vontades de meu amor; pelo meu amor, substantivo composto; por amar, verbo intransitivo; pelo cerne do pinho siberiano que reluz em meu olhar as vontades de um inverno brando de prazer; pelo próprio prazer, que germinou todas as ilusões sofridas e esclarecidas por Apolo; por Apolo, eterno Pai dos também filhos de Baco; e já que falo de Baco, por Baco, meu guia, meu Norte – se é que ouso ter um -; pelas metamorfoses da vida que definem as cores da áurea; pela áurea, minha maior amiga, que sempre esteve ao meu redor, seja em tempestuosos mares ou tonificados campos, que sempre esteve grudada de forma tênue às linhas de meu corpo, que embora feias e tortuosas como o limbo dos filhos de Baco e Diana, encantam deuses e mortais; por Diana, Senhora da caça mas sem destreza; pelos raios de Sol que reprimem minha íris e secam minha retina já cansada; pela minha retina e por todas as outras ao meu redor; pelo grafite, que me serve de boca e voz; pelo látex, que me corrige quando percebo meus erros; pela prata forjada por Hefesto que jaz em meus dedos e que somente me lembra o brilho do teu sorriso; por Hefesto, que lapidou minhas esmeraldas com forjas de ônix; pela bruta e amarga ônix, que desponta em simetria todas as minhas vontades e versos; pelos meus versos, que me fazem rir e que um dia te encantaram; pelo concreto, que sempre te colocou acima da minha cabeça e que sempre me colocará abaixo dos teus pés; pelos teus pés, que traçam, desbussolados, tua sina oblíqua e dissimulada. Pelo teu olhar, e que olhar! Pelo par de ônix que fez a esmeralda, pedra mais rara e reluzente, ofuscar em opacidade, pelas portas trancadas de tua alma, que movem o grafite que cá está a escrever estas simples, sinestésicas e agridoces palavras. Pelas palavras, meus anjos de cera, minhas pérolas que entalho em jóias. Por mim, filho do carbono e da amônia, que sempre estive a esperar o amor que nunca deu frutos ou derramou raízes profundas.

Pela sintaxe da primeira pessoa, que ME traz aqui.

Por todos os motivos que infelizmente fincam o risco incerto do grafite na folha virgem, devo jurar à mim, ao meu âmago, aos meus olhos, às minhas abençoadas mãos que pulsam por dor e cansaço, ao Olimpo, que continuará ao meu lado, à Hera, fiel escudeira ruivo-achocolatada, à Atenas e à Diana (que o amor as tenha), à Baco e à Apolo... Devo jurar que deixo de lado toda a primavera sépia e sem flores pela qual minhas inspirações tanto lutaram. Deixo para trás meus suspiros adocicados e meus bocejos salgados. Deixo para o papel as minhas mais simples, porém parnasianas e árcades palavras. Deixo de lado todo o meu amor por você – se é que houve algum -.



III

- RESSALVA -

Monólogo direcionado ao Olimpo – Sorriso – Cristo – Sangue.

Juro dar fim à tudo que prende minha sanidade à uma pesada rocha de hematita. Entretanto, só juro dar pontos finais à esta história se na aurora de depois de amanhã, sétimo céu clareado do décimo mês, na quarta estação do ano que veio alguns milênios após o fim da Babilônia, meu amor não sorrir para mim nos cumprimentos corriqueiros de quem quer e de quem não sabe se quer. Fica aqui firmada a condição do sorriso espontâneo. Como testemunhas: o papel, o grafite, as entranhas, o concreto que está em minha retaguarda, as telhas que jazem sob minha cabeça, a prata em meus dedos, as minhas unhas que, curiosas, assistem a tudo isso, e a minha retina cansada.

Fica decidido, em síntese, que a ausência do sorriso no cumprimento do sétimo dia de Brumário resultará em desistência total das palavras e sinas fundamentadas nestes anos que podem terminar nessa primeira semana do segundo mês da última primavera da primeira década do segundo milênio após o derramar do sangue, digo, vinho, de Cristo. E, já que falamos de Cristo, que o sangue deste rasure minhas palavras aqui cravadas em dor e tendinite.

Que todo o Parnaso deste Céu de concórdia esteja ao lado deste juramento, deuses meus. Que, dessa vez, meu próprio sangue esteja ao lado de minha consciência, e que este seja mais forte que a carne que me seduziu.


IV

- BÊNÇÃO -

Evocação – Acaso – Essência.

Juradas as palavras estão, evocadas figuras. Jurei perante os deuses do Olimpo, perante o Parnaso, a Ática e o Peloponeso. Jurei perante minhas esmeraldas, minhas entranhas, perante o sangue sagrado de Cristo e, mais grave que isso, perante minha retina cansada.

Ao testemunho do meu juramento peço a bênção de orar, margear, inspirar, entornar e forjar a minha fidelidade à promessa que fiz à minha própria essência.

Por fim, peço ao espectro atemporal do acaso que preze pelo sorriso crevejado de pérolas naturalistas de meu amor.

Não peço nada aos meus outros deuses do Olimpo, pois tenho a consciência de que todos os sacros humanos, vizinhos de Zeus, mais que Héracles no fim de seu suor, estão cansados das minhas orações.


V

- ÚLTIMA EXPRESSÃO DAS VONTADES DE NARCISO -

Clichê.

Como bom documento de considerações finais, este que vos prende ao papel já amassado e desfigurado, com as extremidades repuxadas em arco em direção aos céus, deve conter, se já não contém, minhas póstumas vontades e anseios.

Antes de explicitá-los, um último pedido de bênção: peço ao carbono que se faz de afiada lâmina em minhas mãos que faça de todas as minhas vontades e fantasias a seguir meros e secos clichês.

Aliás, meus deus e litros de sangue, que belos clichês!

Quero voracidade, quero saliva, cortejo, carícia, arrepio, calafrio, dor, cócegas, pinceladas, prazer. Quero sentir o aroma amargo do sândalo e do ópio repuxando minhas peles trêmulas, quero sentir no fundo da glote humana que me foi concebida a estocada do amargo gosto de cardamomo e tangerina do teu beijo que só imagino sentir. Deixe-me fazer dos teus olhos o Sol no raiar das doces manhãs. Permita-me afogar em teus braços lisos como a seda do oriente o sofrimento de não poder amar-te todas as tardes. Suplico, pois, que deixe-me sonhar livremente, deleitando-me com a simples fantasia das mãos minhas postas nas tuas costas, como deslizam as ondas na praia de areia dina ao anoitecer do escaldante luar. Se ao menos deixasse-me fantasiar com as noites de fetiches sem fim, seria eu alguém muito mais feliz.

Meus lábios secos e estilhaçados, contornados pela pulsante moldura que borbulha o frágil rubro da coita, colados aos teus, inundados pelo fulgor da paixão adocicada que reflete em brilhante mel o amor inatingível. As unhas minhas, ao leve deslizar no brando pescoço teu. Teus ombros, então, curvos como o arco de Eros, cobrindo meus afagos como faz a concha com sua pérola.

Mas, o que é o amor dos sonhos perto da infeliz realidade? Nada!

Pois então, continuarei sonhando. Acordado.


VI

- ÚLTIMO VERSO -

A síntese em rima

Para selar o juramento com pontifícia e rígida cera, sinto que devo, aqui, forjar meu último verso, com as mais escolhidas e límpidas palavras atribuídas ao meu âmago poético.

Surgiu, resplandeceu e quer se apagar.

Tomara que não se apague, o opaco fruto do amar.

Tomara mesmo que teu sorriso queime em negra chama

Este contrato que reclama

A minha vontade de parar.




VII

- FIRMA -

Dou fé.

Com as gregas figuras abençoando as curvaturas grafitadas de meu nome, entornado pelo mais doce e enojado mel de Diana, assino aqui minha sina, minha palavra. Queiram Baco e Apolo que todas estas folhas rabiscadas sejam efêmeras e desnecessárias.

“Prometo cortar com a lança de Atenas a carne que representa meu amor pela amarga Seda de olhos cravejados, caso um sorriso não marque a manhã do dia sétimo deste mês. Prometo, por fim, continuar a inspirar o Olimpo com minha poesia caso o sorriso marque a aurora do dia pelo qual tanto anseio.”

Dou fé.



~jft
heterônimo Narciso

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