Já é de conhecimento geral que a incerteza e a decisão me servem de Norte e Sul. Entretanto, não foi exposta nessas páginas clichês o que divide o tormento com o meu amor pelo Luar: a Bolha.
A Bolha nada mais é do que uma figuração concreta referente ao limbo de perfeição em que minhas irmãs, Atená e Diana, se encontram.
Penso que o amor entre mortais é lindo e, meus leitores, imaginem o amor entre deuses! Ou deusas, no caso.
Pois bem... Continuemos:
Por muito lutei ao longo desses últimos tempos, lutei e empunhei meu arco em nome do amor incondicional que Atená exala por Diana e que Diana exala por Atená. Cheguei a degolar Medusa, tens noção do que isso significa?!?!? Usei do mais puro elixir que escorre da métrica que me move, inspirei mortais e evoquei heróis pelo amor das duas. E continuarei derramando sangue, platina, suor e lágrima se for preciso! Vejo no pedestal em que minhas amadas irmãs se encontram o Monte Parnaso que nunca tive com o Luar! Por tudo que há de mais sagrado entre os infernos de Hades e os céus de Zeus, passando pelos mares e encostas de Poseidon, como eu amo o amor dessas duas!
O Olimpo sabe que esse amor é odiado por deuses o mortais, e as duas amantes também. Sabem, inclusive, que eu, Apolo, sou o ÚNICO imortal empunhado lâmina e escudo em nome do amor das duas! Em contrapartida, sabem também que metade do mundo mortal e do submundo aponta suas lanças de metal barato e apodrecido para as duas deusas. Pois bem, que continue assim! Afinal, nem mesmo todas as lâminas da Tessália e todas as armaduras do Mediterrâneo seriam capazes de vencer ao menos uma flecha disparada por mim.
Porém, não é tudo isso que me traz aqui. O que realmente pinica os meus pés iluminados e abençoados por Hermes, meus leitores, é a imersão dessas duas belezas olímpicas... É a preocupação que deuses e mortais sempre terão com a cegueira do amor...
A Bolha não é mais bolha, meus caros. É, então, um imenso e inerte cubo de chumbo, cobre, bronze. Estático, simétrico, pragmático! O amor dessas duas é como uma bola de neve que aglomera hipérboles e hipérbatos em meio a um descampado sem proteção...
O que me dá medo, mortal, é o fato de Afrodite não abençoar esse amor! Pelo contrário! Esse amor do qual tanto falo é guiado pela cegueira! Pela mais pura e intencionada cegueira! As flechas de Eros acertaram, além do coração de Diana e Atená, os olhares das duas! As suas retinas estão apodrecendo, juntamente com a minha aljava que as protege!
Eu não sei mais o que fazer, mero mortal... Não sei!
O que faço eu para ajudá-las? Posso somente disparar minhas flechas cravejadas de platina... Posso somente iluminar os céus com o Sol... Mas com a Bolha, jamais poderei lidar!
A Bolha é transcendental, inexorável! Deuses morreram e hão de morrer por causa dessa maldita BOLHA!
O que faço? Meus filhos, O QUE FAÇO?
Atená jogou sua lança no chão de concreto, abandonou sua armadura e pôs seu elmo de guerreira na estante do ócio. Deixou de lado Réia, Héstia, Menelau, Afrodite, Hera... E para poder acompanhá-la Narciso se tornou Apolo! Diana abandonou as filhas de Eros, ninfas; abandonou a Górgona (ainda bem!)... Deixou de lado suas flechas, rompeu seu arco de carvalho e rasgou suas vestes de seda!
O Olimpo conspira contra esse amor, e, ao lado dele, só existe o meu arco e a minha razão!
Terei que degolar deuses, meu leitor? Terei mesmo que continuar acertando âmagos e entranhas? Pois bem, continuarei! Pelo amor dessas duas irmãs, pelo encesto olímpico, eu continuarei! Continuarei arcando com as consequências de proteger duas deusas cegas... Pois foi confiado à mim o fardo de iluminar a visão de quem for preciso! Quando me assumi como Apolo, também tinha essa consciência anexada à minha sina.
Eu só peço um pouco mais de discernimento e ponderação. Afinal, as duas ainda são filhas de Zeus e irmãs da Razão. Não são tolas e desnorteadas, penso eu.
~jft
heterônimo Apolo
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