AS CONFISSÕES D'OL I M PO DES C O M PA S S A D O

Por Hades ou Zeus, eu peço perdão
Talvez por ter sido tolo até então.
Querendo a minha prosa o Luar ou não,
Seja bem-vindo, caro mortal, à este limbo de podridão.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

De Narciso à Apolo

Antes o Olimpo me apelidava de Narciso, por sustentar uma bela máscara de porcelana, fazendo deuses e mortais acreditarem em algo que, na realidade, não existia. Narciso era preso ao seu lago, vivia para admirar sua imagem nas águas turvas da deusa Sabrina, nos bosques esverdeados das Adríades na Ática. Narciso não orava à Dionísio, à Eolo e muito menos à Zeus ou à Hades. Narciso não tinha fé de vida, acreditava única e exclusivamente em sua beleza, mascarada. Narciso se mantinha preso às margens do lago que refletia sua imagem-mentira, e respirava somente para continuar se admirando.
Pois bem, Narciso mergulhou. Mergulhou, sentiu a água amarga do lado gélido como alma de porco inundar suas entranhas e glotes, sentiu faltar-lhe o oxigênio que o mantinha belo, sentiu tudo se esvair por entre a água turva do lago negro. Como bom filho de deuses e ninfas que morrem, Narciso virou olímpico.
Deixei de ser Narciso; deixei de sustentar mentiras mascaradas pela métrica e pelo parnasianismo para ingressar no manto de minhas irmãs. Fiz platina correr pelas minhas veias no lugar do sangue mortal viscoso que me mantinha em pé. Fiz de minha pele de porcelana, jóia rara entornada por ouro divino, forjado por esmeralda e ônix. Fiz de minha convicção oblíqua, uma flecha certeira e esclarecida. Fiz da indecisão a razão mais divina que já habitou o Olimpo: fiz do Narciso, Apolo.


~jft
heterônimo Apolo

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