Passou-se mais uma semana de confusão, difusão, cansaço, escapismo. Por vezes cheguei a deixar os céus de lado, voltar à minha estância terrena... Mas, novamente, de nada adiantou. Cheguei a forjar uma convicção provisória, enganação pura. Muitas variáveis atuaram sobre a constante cinética que ouso chamar de vida. Deuses, titãs e mortais me procuraram, e por minha sanidade clamaram! Cheguei a decidir abandonar essa falsa verdade que vejo no Luar... Meus deuses, cheguei a me convencer de que nada disso valeria a pena! Bordei um manto de convicções e certezas, tingido pela decisão de viver livre dessa moléstia chamada amor! E não é que o tal manto bordado pelas minhas mãos havia ficado belo e até com bainhas nas margens? Era dotado de mosaicos entalhados em linha macia e amarga, alternando flores estarrecidas e folhagens apodrecidas com retalhos de consciência. Por muito tempo (o suficiente para meu âmago voltar a respirar) o tal manto cobriu meus olhos e minha sina, tornando-os opacos.
Nota: O que vem escrito a seguir é clichê, previsível, desgastante e puramente ridículo.
O primeiro passo do Luar no degrau metálico das escadas descosturou as primeiras remendas da minha convicção. Não havia avistado a Lua ainda, mas, ao olhar no relógio e marcar a sua hora de chegada que aguardo todas as manhãs, senti o ponteiro afrouxar outras costuras do manto que me mantinha aquecido em um limbo de razão. Mesmo assim, o manto ainda me cobria.
Nota: Segue a minha parte preferida dos fatos matinais.
O olhar da Lua se encontrou com o meu. Nem se eu evocasse Héracles e usasse sua armadura para lustrar minha rima; nem mesmo se eu usasse a lâmina de Perseu para afiar meus versos; talvez nem se viessem ao papel todos os titãs engendrados por Hades, dispostos a lutar por meu grafite e por minha grafia, seria eu alguém capaz de descrever o teu olhar e o que borbulhou por entre as minhas entranhas apodrecidas. Teu olhar mesclou desprezo, curiosidade, indecisão e nojo à um aroma amargo de sândalo e mirra torrada, que efervesceu em minha retina sabores e sensações humanamente reservados ao paladar, jamais à visão. O teu olhar farpado como arame trançado em serrote de pinho lascado, afiado como cimitarra de espartano apontada à Tróia e cortante como papel certeiro que abre lasca ensanguentada na pele virgem, descosturou em nacos de pano e certezas oblíquas o meu manto bordado pela razão que possuí ao pensar em desistir da Lua. Esquartejou com navalhas de ônix toda a minha convicção em deixar o amor para trás. Tudo voltou à estaca zero. Entretanto, as peças e as técnicas do jogo mudaram.
~jft
heterônimo Narciso
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