AS CONFISSÕES D'OL I M PO DES C O M PA S S A D O

Por Hades ou Zeus, eu peço perdão
Talvez por ter sido tolo até então.
Querendo a minha prosa o Luar ou não,
Seja bem-vindo, caro mortal, à este limbo de podridão.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Cerne?

Que tenho eu além de minha identidade? O que pode ter um deus além de sua silhueta? Nada! Meus amados leitores, vocês me entendem?
O único e primordial tesouro que foi confiado por Zeus ao homem e aos Olímpicos, fora a identidade! Se não tens identidade, não tens nada.
Digo que perdi meu cerne, minha identidade. Me sinto mais oco que santo de pau oco, ou melhor, deus de pau oco.
Todo o meu floema de artista e apaixonado pela métrica se esvaiu, dando lugar à uma vontade imensurável e infelizmente inexorável de alcançar o Luar. Luar amargo, mais parece seda oriental. Já usei de minha poesia para alcançá-lo, e quer arma mais poderosa que a palavra com métrica e rima?
Héracles percorreu todo o Peloponeso, Perseu degolou Medusa com uma lâmina barata e eu... somente tentei alcançar algum sorriso usando a mais brilhante, límpida e cristalina rima! Usei do parnasianismo, do arcadismo, do barroco, meus deuses, cheguei a usar o romantismo! Fiz da sintaxe a minha lâmina afiada; fiz do papel o meu escudo de bronze; fiz do grafite meu arco e da estrofe, minhas flechas! Fui clichê, foi brilhante, fui genial, fiz correr platina e ouro de poesia pura em minhas veias, deixei de lado meu sangue cansado e doente, deixei de lado a minha identidade! E o que tive em troca? Nada!
Cheguei a ser presenteado com sorrisos, palavras... E, caro leitor, essas esmolas desconfiadas formaram o gérmen que alimentou minha esperança! Desisti de alcançar a Lua, deixei de lado meus princípios e minhas convicções por uma alma cigana de olhar oblíquo e dissimulado!
Se isto lhe parece uma confissão, me desculpe. Cansei de fazer do ouvido alheio minha latrina para dejetos sentimentais mas... Aonde mais posso depositar minha indignação?
Não estou indignado com quem eu tanto amo, não! Nunca estarei! A alma pela qual eu tanto luto é tão simplesmente perfeita que jamais seria alvo de minha indignação ou revolta!
Me revolto com minha poesia, com minha métrica, com minha capacidade!
Como não fui capaz de conquistar o Luar? COMO? Meus deuses, irmãos, filhos, gregos... Eu fiz de meus rins o bulbo negro regado pelo desejo de Baco, que por muito filtrou meu sangue corriqueiro e viscoso! Fiz de meu coração o alvo certo para Eros, e o maldito o acertou com uma também maldita flecha de ouro! Como afronta, o maldito Eros também disparou uma flecha no coração da Lua, mas, infelizmente, essa última era feita de bronze!
Estarei eu condenado a apontar minha poesia e minha sina ao meu amor como fez Paris com sua lança troiana apontada à armadura espartana de Menelau?
Terei mesmo que continuar apostando nas sílabas todas as minhas vontades e desejos? Pois então, apostarei!
Perseu não fora feito para lutar, mas lutou! Dafne fora feita para amar, mas nunca amou! Jacinto fora feito para viver, mas não viveu! Eu não fui feito para empunhar a espada e degolar cabeças! Fui idealizado para empunhar o grafite como lança e descrever a guerra!
O cansaço meu é tanto, que faltam escolas literárias para definir o que quero dizer.
Faltam oportunidades, falta escrúpulo, falta pudor! Falta bênção, mas vontade, sobra!
Vontade de amar, de salivar, de sentir, de aflorar em prazer... Vontade de ter!
Me desculpe, caro leitor... Acabei fazendo deste recindo a antes mencionada latrina para dejetos sentimentais. Fazer o que?


~jft
heterônimo Apolo

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