AS CONFISSÕES D'OL I M PO DES C O M PA S S A D O

Por Hades ou Zeus, eu peço perdão
Talvez por ter sido tolo até então.
Querendo a minha prosa o Luar ou não,
Seja bem-vindo, caro mortal, à este limbo de podridão.

sábado, 23 de outubro de 2010

Sinal

Acaba de invadir meu aposento uma besta alada, do tamanho de uma cereja. Coloração apodrecida, bege. Ao bater de suas asas, disseminava poeira, pólen do cansaço. Olhos enormes, levando em conta sua proporção, cravejados como duas pulsantes hematitas que refletem a natureza animalesca de um artrópode que busca a luz.
O podre e imbecil animal invadiu meu quarto pela janela aberta, e, veloz como um relâmpago e certeiro como tal, se direcionou à luz que ilumina meus estudos neste dia tão triste e passional. Em busca da luz a besta afrontou-me, figura humana, de proporção titânica ao ver do animal. Afrontou-me, invadiu minha estância tranquila, pregou-me um susto e... Apenas seguiu em direção à luz. Animal tolo, colocou a vida em risco somente para alcançar a luz. Luz artificial, diga-se de passagem.
Por trapaça do acaso, acabou por se adentrar na espiral de um de meus cadernos. Caderno de literatura e com a página aberta nas passagens românticas, diga-se também de passagem.
Se enfurnou na espiral e exprimiu seu corpo cilíndrico armado por asas ferozes e desordenadas, e, com os movimentos limitados, começou a se debater em um diâmetro pouco maior que a própria carapaça. Ficou presa, a besta alada. Presinha, presinha.
Apressou o passo para conseguir se safar, se debateu e se contorceu em direção à outra extremidade da espiral metálica e, percebendo que o caminho seria longo demais, mexendo suas antenas como pinceladas incertas no ar, obteve a convicção de que um outro caminho de escape seria mais pertinente e eficaz.
Andou para trás.
Se debatendo ainda contra a parede de folhas e a espiral do caderno, o grotesco animal passou a se direcionar, de costas, sem enxergar nada ao seu redor pois sua visão se encontrava trêmula pela agitação, para a extremidade da espiral em que havia se adentrado.
De marcha ré, rapidamente, viu-se no caminho certo para o escape da emboscada tramada pelo destino.
Ao sair do túnel engendrado pelo acaso, o tolo animal voltou a voar desnorteado pelos ares de meu aposento. Eu, como bom humano e escroto mortal que sou, empunhei alguma coisa que avistei de primeira estância e comecei a golpear o ar inutilmente, procurando acertar a besta que me assustara. Por fim, o animal acabou acertado por meu caderno, que havia tramado a emboscada da espiral. Ainda vivo, se ergueu pelos ares e fugiu pela janela.
Nada tenho a dizer... Afinal, meu papel por aqui ainda é fazer sugestões.



~jft
heterônimo Apolo

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