AS CONFISSÕES D'OL I M PO DES C O M PA S S A D O

Por Hades ou Zeus, eu peço perdão
Talvez por ter sido tolo até então.
Querendo a minha prosa o Luar ou não,
Seja bem-vindo, caro mortal, à este limbo de podridão.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

E se...

Se até agora eu ao menos tinha um conceito de certeza, devo dizer que até isso se esvaiu. Meu chão desabou... Meus deuses, como pude ser tão TOLO?
Fundamentei toda a minha poesia na esperança de que o Luar ao menos se interessava... Mas, como disse Menelau, e se nada foi lido? E se toda a história de olhar e interesse pela minha métrica foi inventada? E se nunca houve interesse pelos meus escritos? E se tudo que ME alimenta há meses tenha sido uma nua e crua FALSIDADE?
Não cheguei a pensar que a Lua pudesse ser tão vil assim... Não sei se é! Porém, a forma com que Menelau abriu meus olhos ao dizer que havia a possibilidade de o Luar não ter lido nada meu e apenas ter aceitado e forjado algo, me assustou! Menelau tratou disso com frieza, apatia!
Menelau disse isso, desabou meu chão com normalidade! E, se há uma coisa que me assusta MUITO é a normalidade, a tranquilidade! Menelau disse isso com tranquilidade! Nessas horas, a tranquilidade serve de prova e argumento fixo e perceptível!
Meus deuses... Como não pensei em uma hipótese tão infantil?
E se o Luar fundamentou todas essas reações e interesses pelos meus papéis apenas por forjar algo? Santos olímpicos, aí sim, reconheceria que eu SOU UM IDIOTA!
E se tudo que escrevi, as mais de 80 páginas de caderno perdidas no mundo, estes textos que dão forma à este espaço de desabafo, tudo, foi escrito por nada?
E se o Luar foi vil, em todo o sentido vil da vileza?
E se a Lua não se interessa por nada e é peçonhenta como a serpente Píton? E se tudo isso foi um teatro? E se, ao invés de dramaturgo, eu tenha sido a marionete?
Meus deuses, que falha! Que falha a minha fundamentar toda essa vida de sentimentos em algo que não é certo, em algo que escondia uma hipótese desconhecida porém letal!
E se tudo isso está no LIXO?
E se tudo foi feito por NADA?
Serei eu um LIXO? Serei eu um belo, estancado e vazio NADA?
Mas que covardia do destino! Que covardia de Zeus! Que covardia do acaso!
São covardes, sim!
São covardes pois estocaram uma lança afiada e farpada em meu âmago olímpico, estraçalhando o fluído ralo de convicção que ainda circulava pelas minhas veias e artérias!
Foram difamados heróis gregos, mestres parnasianos, românticos, árcades e naturalistas! A filosofia empirista foi queimada viva! A minha rica descrição dos fatos foi amassada como papel barato e arremessada na lixeira de um cigano oblíquo e dissimulado!

Mas, meus deuses... E se tudo foi lido?
E se tudo foi testado, foi verdadeiro?
E se o Luar realmente se interessou por minha poesia?
E se a Lua realmente é incomodada pela farpa da curiosidade?

Que dúvida horrível, meus deuses!
Nem mesmo vagar pelas terras de tártaro e enxofre que margeiam Hades seria tão cruel! Nem mesmo lutar contra leões, minotauros ou górgonas seria tão cruel! Muito mais cruel e vil do que travar batalhas e derramar sangue por obra do destino, é derramar rimas e descrições em uma jarra que não se sabe se é de barro ou de ouro, se tem fundo ou se é infinita!
Não há castigo pior para um deus do que ter toda a sua VIDA de poesia entre um abismo de decepção e um céu de concórdia! Não é justo que coloquem toda a minha poesia em cima de uma linha tênue que separa o fracasso do sucesso!
Não é justo!

Não sei a quem mais clamar e pedir ajuda... Que Luar forte!
Resiste às tramas de Diana, Apolo, Atena, Hera, Menelau, Réia, Medusa, Afrodite... Resiste à poesia metrificada do deus que criou a luz!
A Lua resiste aos encantos do Sol!
Como poderei eu afrontar toda essa bravura e resistência?
Como poderei dar continuidade à minha obra, se tudo que constava em minha poesia já foi gasto?
Como poderei continuar apostando a sorte no Luar se já gastei com ele minha hipérbole barroca, meu adjetivo naturalista, meu ócio parnasiano, meu bucolismo árcade e minha mitologia classicista? Minha aljava de flechas está vazia!
É chegada a hora de trocar o arco e as flechas pela espada?
É chegada a hora de usar a lâmina?

E SE EU USAR A LÂMINA?



~jft
heterônimo Apolo

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