AS CONFISSÕES D'OL I M PO DES C O M PA S S A D O

Por Hades ou Zeus, eu peço perdão
Talvez por ter sido tolo até então.
Querendo a minha prosa o Luar ou não,
Seja bem-vindo, caro mortal, à este limbo de podridão.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Desejo simplório

Se perguntassem à homens e deuses o que mais desejam, as respostas seriam variadas, porém, semelhantes. Perseu e Héracles, bem como Ares, Hermes, Hefesto ou até mesmo Hades responderiam algo relacionado à vitória de uma batalha ou o derramamento do sangue inimigo: Perseu clamaria pela morte de Medusa; Héracles, pelo triunfo em Creta; Ares desejaria a sorte e a vitória para o Peloponeso; Hermes, em nome da paz em Milos; Hefesto clamaria pelo bem das forças de Zeus e Hades apostaria a sorte no poder de seus titãs. Pois bem. Se perguntassem à Ártemis, a deusa da caça responderia com o desejo natural e belo de abençoar os seres animados da Ática. Atena prezaria pelo bem-estar da razão como luz na mente humana, e Menelau de Esparta responderia a berros e fúrias que deseja o retorno de Helena, junto com o cadáver de Páris.
Se perguntassem à Jacinto, o jovem diria que o que mais deseja é lançar discos e lanças até ultrapassarem a linha do horizonte, em direção ao Sol. Respostas previsíveis, de certa forma.

Se me fizessem essa mesma pergunta, não responderia pelo bem do arco e da flecha em mãos hábeis e dotadas de destreza invejável; não clamaria pela razão resplandecente nos céus da Ática e nas encostas do Egeu; jamais desejaria o derramamento de sangue mortal ou titânico (com excessões). Talvez eu cogitaria acerca da volta de Jacinto aos meus braços, rapaz que teve a vida retirada por trapaça de seu pai, Eolo. Poderia refletir acerca do desejo de fazer as pazes com Dionísio nas artes humanas, mas, de uma forma ou de outra, continuaria eu sendo o inventor da métrica engajada e Baco sendo o arquiteto da poesia descompassada e descompromissada. Portanto, não tenho dúvidas, como bom Senhor da razão e da clareza que sou para homens e deuses, de que pediria atenção. Atenção breve, singela. Algo a mais que um sorriso amarrotado ou uma efêmera troca de olhares na aurora. Não pediria de momentâneo o deleite com o Luar pelas rochosas terras do Mediterrâneo, mas tenho certeza de que pediria apenas a consideração de um mortal desinteressado para com uma divindade poeta. Pode aparentar infantil ou clichê, como já foi dito aqui, mas, a atenção da Lua é tudo que me interessa. Me interessa mais do que ter em mãos uma cítara de casco de tartaruga do Adriático ou uma aljava de marfim mouro. Afinal, essa gotícula de atenção está separada, por uma linha tênue, do retorno da minha essência.



~jft
heterônimo Apolo

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