AS CONFISSÕES D'OL I M PO DES C O M PA S S A D O

Por Hades ou Zeus, eu peço perdão
Talvez por ter sido tolo até então.
Querendo a minha prosa o Luar ou não,
Seja bem-vindo, caro mortal, à este limbo de podridão.

sábado, 6 de novembro de 2010

Ame

Nunca ame um garoto
pois garotos são sujos e burros.
Nunca ame uma garota,
pois garotas são limpas e espertas.
Jamais ouse amar aos esmurros,
pois esses arrombam as carências já abertas.

Ame somente a vida, a rima,
a doutrina.
Ame somente o suor, o pudor,
o amor.
Ame o amor dos demais,
ame o amar alheio.
Jamais ame o amor dos mortais,
ame o amar de Apolo pelo centeio.

Ame sua carne, ame sua cartilagem,
ame seus pés, suas unhas,
jamais ame por mera bobagem
a carne, a cartilagem, os pés e as unhas
de outras amadas criaturas.

Ame o sofrimento, pois esse faz amar
ainda mais o doce e tedioso relento.

Ame o tártaro dos seus dentes,
ame a remela matutina de seus olhos.
Afinal, se não amar o que herdou de seus entes,
amará que outra curva dos pretendentes?

Não ame o homem,
não ame a mulher!
Ame o pólen
da flor que nada quer.

Ame o ócio, o tédio, o sono,
ame a serventia do dono!

Ame o verbo, o substantivo e
quiçá o adjetivo!
Ame o número, a matemática,
ame a sintaxe, a gramática!


~jft
heterônimo Tavares

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