AS CONFISSÕES D'OL I M PO DES C O M PA S S A D O

Por Hades ou Zeus, eu peço perdão
Talvez por ter sido tolo até então.
Querendo a minha prosa o Luar ou não,
Seja bem-vindo, caro mortal, à este limbo de podridão.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

A passagem sem explicação do sutiã de Boa Fé

A amarga e efêmera história de Maria Louca no sertão de Alagoas


O sol de primavera já refletia límpida luz por entre os vitrais sacros e entalhados em puro cristal da Igreja Matriz enquanto o sutiã de Maria Louca queimava na Praça da Verdade, no centro de Marco da Boa Fé, vilarejo esquecido pelos deuses no interior de Alagoas. E, por falar neste sertão entalhado por miséria e seca, devo lhe dizer, estimado leitor, que estas páginas escritas tratarão de abençoar a história talvez fictícia de uma também esquecida mulher, como toda boa sertaneja de sangue e cerne. Mas então, voltemos aos fatos a serem descritos. Neste dia de setembro, cerca de dois meses após a morte do Coronel Souza, íntegro homem de sangue bandido e misericordioso acerca do qual dissertarei depois, nenhuma brisa fresca havia estremecido as folhagens ressecadas e frágeis do centro de Marco da Boa Fé.

Maria Louca era mãe solteira, viúva por convicção. Filha de Iemanjá e Oxum, como a própria fazia questão de dizer ao se apresentar, criara o filho Fabiano, sofredor de nome e sina, desde que seu antigo amado, Perpétuo, lembrança pragmática de nome e sina, havia deixado o vilarejo no sertão alagoano para tentar a vida na cidade grande, terra paulista, selva de concreto. História clichê, como toda boa narrativa de vida de todo bom natural de Marco da Boa Fé. A amarga sertaneja se ocupava em trabalhar na quitanda do bom e velho Cajá, antigo comerciante e tradicional nome da região. Como distração, passava as horas livres na praça, cochichando com as lavadeiras da pensão Boa Fé, na barbearia Paraíso. Maria Louca, naturalizada Maria José de Castro, era morena como trufa de cupuaçu, tinha pele de seda tingida pelo sol do nordeste. Seus olhos eram da cor que as matas do sertão sempre invejaram, esverdeadas como as águas do poço artesiano mais profundo das terras do Coronel morto, homem rico, com muita água em sua vizinhança. Seu rosto era fino, parecia mandioca ressecada, rachada. Sejamos sinceros e minuciosos, caro leitor: seus dentes, amarelados como o branco dos olhos das crianças deste sertão, muitas vezes chegavam a se tingir de acinzentado tom, pelo mal do fumo. Tinha algumas tias lá para os lados baianos deste solo calango que tinge o Brasil, e seus pais ainda residiam em Salvador, no sagrado Pelourinho. Da família de seu pai, soteropolitano de família de orixá e tudo mais, Maria havia herdado as unhas rígidas e lustrosas como o tronco da figueira que nasce em terras férteis e longínquas. Pernas mirradas, cabelos morenos e secos como piaçava, às vezes tingidos de vermelho ardente pela vaidade da mulher guerreira.

Estava cansada da mesmice do sertão, da mesmice da vida. Havia se mudado para a cidade no interior do nordeste por conta de seu afastado marido, conhecido na Bahia, há alguns anos antes do Coronel falecer. Sempre ouvira dizer que queimar o sutiã na praça é algo que ninguém faz, coisa de mulher desnorteada, sem noção das estações. Maria não agüentava mais persistir em viver naqueles recantos côncavos e estilhaçados do sertão, queria voltar para Salvador. Havia deixado sua família na salgada terra baiana por pressão de seu odiado esposo, que, por questões familiares, deveria se mudar para o interior de Alagoas para viver ao lado de seus pais os últimos momentos de suas amargas vidas. Maria não derramava lágrimas de cansaço e tristeza pois lágrimas, como bem sabia por ter lido algumas obras de renome na Bahia, eram salgadas, e sal era o que lhe faltava. Seu marido lhe deixou dívida por todos os cantos de uma cidade com meio punhado de gente; mas gente o suficiente para gerar muito compromisso de tostão. Com filho para criar e dívidas para acertar, o jeito era continuar na cidade até juntar uma boa quantia de réis para voltar à Bahia de todos os Santos.

Naquele dia, não havia saído para trabalhar, e não havia acordado Fabiano para ir roçar nas terras do falecido Coronel. Maria havia despertado da noite primaveril com gosto de âmago exausto nos lábios, com zumbido de mudança entre os tímpanos ressecados. Antes mesmo de a Matriz badalar cinco pontos no relógio de bronze e fadiga, Maria havia pulado da cama iluminada pela chama das velas cegas que iluminam a noite no sertão e passava pela cozinha de sua toca para apanhar os fósforos caros que eram vendidos como platina na mercearia local. Não resistiu ao apanhar, dessa vez pelo chão do lavabo, seu sutiã de renda, que havia ganhado de presente. Corria, então, em direção a Praça da Verdade, desesperada, com o sutiã em uma mão e os fósforos em outra. Seus passos apressados, tropeçavam em pedregulhos sertanejos que também perfuravam e cutucavam a sola rachada e esfarelada de seus pés trabalhadores. Empurrava as portas finas de madeira vagabunda de sua casa, topava o dedão machucado em pólos de cimento pelo caminho. Respirava apressada, como faz a andorinha ao nascer. Seus músculos pulsavam adrenalina e seu sangue se embebedava da cafeína fria e amarga que havia tomado ao sair de casa, no bule gelado em cima do fogão sujo. Apressada, desesperada, com os olhos lacrimejantes e com os pulmões contraídos mais que a semente de feijão que brotava nas terras secas das fazendas nordestinas sem enxerto nem bênção divina, Maria agora cruzava a esquina na Rua Carcará, que desaguava a terra prensada que servia de asfalto na Praça estimada. Correu mais e mais, seus pés repuxaram os tecidos de sua carne magra, seus ossos começavam a esfarelar em falta de cálcio e disposição, e então, alcançou a calçada da Praça.

A morte do Coronel Souza, oficial de patente adquirida por apadrinhamento político e bem-estar fiscal, entornou a cidadela de Boa Fé em um manto de dúvida e desconfiança. Quem mataria o bom homem que dava trabalho aos que pediam, regava as terras plantadas com água doce, aconselhava o prefeito e que ainda havia construído a fonte central da cidade, ornamento tortuoso de gesso barato, que abrilhantava o olhar pobre dos também pobres sertanejos? Quem seria capaz de dar fim à vida de um homem forte como carvalho, imponente como raiz de mandioca e bondoso como santo? Coronel enriquecido, nas terras alagoanas, servia de santo para os católicos desesperados e pai para os órfãos abandonados. E como todo cidadão do sertão é católico e se considera órfão de alma, o Coronel era tido nas terras de Boa Fé como o orvalho era visto nas matas cerradas de Alagoas. Apesar da saúde do Coronel ter sofrido alguns abalos pela idade do bom homem, o pai de Boa Fé ainda fazia questão de visitar, todos os dias da semana e todas as semanas da estação, todos os pontos de comércio da cidade.

Em certo dia de fim de inverno, a criada da casa grande do sítio do Coronel servia o café da manhã no terraço de mármore empoeirado quando ouviu o som estridente da bengala do Coronel cair no chão de madeira vazada. Correu, embora sua idade e suas banhas não permitissem a negra mulher apressar o passo a um ritmo muito apertado. Ao chegar no corredor dos quartos, viu vazar pela porta do quarto do Coronel a cabeça de prata lustrada da bengala que acompanhava os passos de rei do homem rico. Apressou ainda mais o passo, e, ao entrar no cômodo do Coronel, se deparou com o homem caído ao lado da cama, embalado no lençol branco como sua pele de defunto, ao lado de sua mulher, posta encima do colchão de palha, também sem respirar. Há quem diga que foi éter, em lenço de maldade e vingança posto sobre os rostos do casal em decomposição. Há quem diga também que foi veneno, calculado e ponderado nas águas do casal. O povo de Boa Fé preferia acreditar que foi natural, pois morte de santo nunca é prolongada ou irradiada, sempre discreta.

Ao alcançar o duro concreto da praça, Maria Louca estacionou seus pés esqueléticos ao lado do busto do Coronel feito em bronze e mármore, em homenagem ao amargo homem que jazia em paz – ou em relutância – no cemitério ressecado de Boa Fé. Pegou seu sutiã, os fósforos que lhe foram concebidos pelo caro preço que custa um ornamento que dá a luz, e... Ah! Que distração a minha! Já lhe contei a razão de ser chamada de Maria Louca a baiana inconformada, meu leitor? Creio que não. Pois então, tratarei de contar.

Era chamada de Louca pois, além de ser filha de orixá em uma terra de Jesus, aceitara continuar na vila nordestina de Boa Fé com seu filho mesmo que mergulhada em dívidas de seu esposo que fugira para Salvador. Acreditara na fidelidade de um homem que havia abandonado sua família em uma terra de pobrezas para melhorar de vida na Bahia, sozinho. Era chamada de louca também por ter sido a única moça da cidade que ousava se pintar. As unhas que herdara de seu pai, viviam tingidas por tons ofensivos aos olhos do povo católico e recatado de Alagoas. Era tida como Louca, e já estava me esquecido disso, por se recusar a ir às missas proferidas pelo Padre Antônio todos os dias na Matriz. Já havia afrontado o Coronel Souza por recusar adultério ao velho safado, e já havia afrontado todos os filhos da Santa Igreja que residiam na cidadela ao romper um terço de oração na casa de sua vizinha, por não agüentar mais ser estigmatizada como filha da umbanda traduzida em macumbeira, pela língua popular.

A meu ver, Maria adorava ser chamada de Louca. Como boa Baiana, filha das terras de Oxalá com dendê e leite de coco correndo por entre as veias, Maria sempre adorou uma confusão e sempre se divertiu com a discórdia, por mais efêmera que fosse. Se odiava algo, não tenho dúvidas em dizer que este algo era o ócio. Maria odiava a falta do que fazer. Era capaz de assolar uma roça, queimar a trindade, despir o Padre, e até ser presa para somente quebrar com a mesmice e deixar de lado a vida clichê. Não se sabe se esse gosto mórbido pelo impacto vem de alguma falha da psicologia ou por capricho da personalidade. Falha ou capricho, só se sabe que Maria Louca seria capaz de tramar, arriscar, difamar e até matar, só para causar rebuliço. Sei que a leitura cansa, e sei também que você deve estar ansioso para que eu volte a narrar a última das tramas de Maria, na praça. Que seja feita a vossa vontade, ilustre leitor! Juro, juro pelo colarinho do torresmo, que narrarei aqui todos os detalhes desta última passagem da vida efêmera de Maria Louca no sertão alagoano.

Tudo parecia fazer sentido, finalmente ia abrir o segredo sobre a morte do Coronel para todo o Marco da Boa Fé, podendo chamar a atenção e dar fim a rotina de angústia que assolava o sertão! Finalmente poderia Maria Louca dar fim às tensões e desconfianças que engoliram o sertão alagoano com o fim da vida do majestoso Souza e sua mulher, finalmente iria brilhar sua pele de ébano e sândalo para mudar a história daquela cidadezinha ordinária e pequena de tamanho e ambição! Finalmente iria vingar a vida amarga que tomou conta de sua alma após a fuga de seu marido, enfim iria acabar com todo o sofrimento de prender seu âmago de baiana em uma terra apertada e sem futuro! Maria Louca tinha entre os lábios rabiscados de batom um sorriso que abrilhantava a noite com pérolas apodrecidas de amarelados tons, tortuosas porém brilhantes! Tinha nos olhos o refletir de uma luz que não vinha da lua e muito menos das estrelas, mas sim do interior de seu indivíduo, de sua interface filha de Oxum, da alegria de poder causar espanto e impacto naquelas terras podres e mesquinhas. Tudo passaria a ter nexo: a chegada de uma baiana umbandista numa terra Severina e católica, a morte misteriosa de um Coronel santificado por um povo injustiçado, as vontades de Maria de causar impacto pelo simples gosto por gerar incômodo e espanto na vida alheia e o sutiã em chamas na praça! Tudo passaria a ter nexo nesta breve história se Maria, ao ascender do fósforo nas rendas vagabundas do sutiã que jazia sobre os olhos de bronze do busto coronelístico da praça central de Marco da Boa Fé, não tivesse fugido.

Não se sabe como nem o porquê Maria fugiu, sem deixar qualquer explicação. Talvez seja decepcionante para ti, leitor desanimado e talvez enfurecido, mas saiba que é também entristecedor para mim ter que reconhecer o fim desta história com a fuga seca e sem explicação de uma ninfa morena que deixou para trás uma trama também sem explicação, um filho que ainda nem sequer despertou e as ânsias de um leitor que esperava algumas palavras a mais neste papel. Maria fugiu, e eu, como não passo de um mero espectador desta história, não posso dizer o que realmente se passou por trás de todas essas lembranças. Quando a cidade acordou, o sutiã queimava na praça, banhando em fuligem o bronze do Coronel. Sentimos a falta de Maria na quitanda, e, quando procurada em sua casa, não foi encontrada. Seu filho ainda dormia, e ninguém teve coragem de acordar a criança sem mãe. Eu mesmo fui atrás de alguma explicação, fui atrás de Maria, em Salvador. Até que eu a encontre, nada posso dizer a ti, ao povo de Marco da Boa Fé e a mim mesmo.



~jft

heterônimo Tavares

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