Raiva.
Não sei de quem nem de quê, mas é raiva.
Amarga como sândalo e mirra, seda do oriente... Amarga como a amarelada cor da Lua apodrecida... Repuxa minhas entranhas em necrose de cansaço.
Raiva, engendrada pelo EGO de um deus que se vê como Sol. Engendrada pela inconsciência de todo um Olimpo burro, tolo, desavisado!
Já se foram os tempos em que os deuses comandavam os céus e os solos desta Terra sem fim. Já se foram os tempos em que os olímpicos controlavam os desejos e as sinas desse mundo sem Zeus nem Hades.
Pois bem... E a maldição se cumpriu. E não é mesmo que minha Dafne se converteu em um oco e podre loureiro? Meus deuses, o maldito Eros venceu!
Que prepotência a minha... Cheguei a acreditar que, por ter destroçado uma serpente de proporções continentais, poderia derrotar uma convicção oblíquoa e dissimulada qualquer, a vagar pelas terras titânicas que abençoo com minha Luz!
Que estupidez... Meus deuses, que burrice! Apolo, Senhor da certeza, da clareza, da destreza... Errou no disparo de uma flecha que se prolongou por um ano e mais alguns meses! Errou o alvo? Errou a direção? Errou o metal? Errou o olho de mira? Não sei! Só sei que errei!
A maldita flecha acabou por contornar o Olimpo e acertar as minhas costas.
Minha ninfa, outrora chamada de Luar e futuramente retratada como Titã sujo de pólvora e enxofre, acaba de se tornar um pé de loureiro! Loureiro oco, podre, sem folhagens e nem raízes! Vai descascar aos poucos, com bicadas e mais bicadas de corvos e urubus!
Vai perder o xilema e o floema até secar em amargura... Ah, vai!
Se um dia houve amor neste deus que vos escreve, agora há ódio! E tenha certeza de que se apenas a metade do amor que havia fosse convertida em raiva, já seria ela o suficiente para desabar Esparta, Atenas e Tróia! Seria ela suficiente para secar as águas turvas do Egeu, do Adriático e do Mediterrâneo! Seria ela capaz de apagar a luz das estrelas e doá-la para a escuridão das cavernas em que se refugiaram os titãs na luta contra Héracles! E é capaz de muito mais... É capaz de tanto, que agora confunde, mais do que o próprio Luar um dia chegou a confundir, a mente mais iluminada e esclarecida dos céus.
Essa raiva me confunde.
"É... É isso que dá flertar com gente burra."
~ Atena
~jft
heterônimo Apolo