Pode aparentar uma relação infantil, ociosa e, então, irônica. Pois bem, que seja! Que atire a primeira pedra o mortal que não for infantil, ocioso ou irônico. E então, voltemos ao assunto de hoje. Falemos primeiramente do ócio, espectro atemporal, praga natural, fúria transcedental.
O que seria dos interesses mais vis do homem se não houvesse o ócio para criá-los? Pois então me diga, como a história bordou as colchas de retalhos humanos tingida por interesses ironicamente desumanos? O que seria desse maldito pseudo-marxismo que mancha o mundo pós-moderno se não existisse o ócio burguês? O que seria das teorias filosóficas mais fúteis e efêmeras se o ócio não existisse? Meu caro leitor, o que seria do MUNDO se o ócio não existisse? Ou acha mesmo que Deus, Alá, Caos ou seja lá quem estava ocupado quando resolveu, por uma trama do acaso, criar essa vida? E, dizendo que o ócio é algo horrível e que criou a vida, digo, por consequência, que o viver é também horrível.
Que seja. As verdades seriam muito mais simples se simplesmente, no sentido mais simples da simplicidade, não existissem.
O ócio gera a improdutividade, o descaso, a inveja, a trama.
Nesse ponto do monólogo escrito chego ao segundo mal do século que, infelizmente, me leva à uma inevitável passagem por um outro mal do século, talvez o quarto ou o quinto: o estudo das ciências sociais. Falemos do capitalismo, então!
Não me arriscarei a dissertar sobre nosso Grande Pai, o Capitalismo. Terra de ninguém, onde se ficar o bicho pega e, se correr, o bicho come. Manto de verdades e fatos que encobre nossa terrena vida de fúteis prazeres materiais e tesões palpáveis. Falso dicionário de verbetes sociais, que traz o nirvana à estância do níquel. Não falarei de Marx, de O. Wilde, da minha mãe ou da sua. Tratarei de explanar breves palavras ofegantes, que expirem o cansaço natural desse segundo mal do século. Pois bem, tratemos do assunto de forma rudimentar e totalmente primitiva. Vejo o capitalismo como somente um vulto ultrassocial que, por alguma razão natural que nem Marx, Wilde, minha mãe ou a sua poderiam explicar. Se infiltra em nossas veias como nitrogênio vital e força relações humanas totalmente verticais e, novamente, ironicamente desumanas. Força a retina humana a enxergar gigantes e fracos entre irmãos de pele, carne, osso e dólar. Força até o último tecido nervoso de nossa máquina apelidada de organismo a enxergar fraqueza naquele que não tem. Inspira uma boa parte dos pecados capitais, é capaz de apadrinhar sentimentos e, ainda por cima, manda em Deus, se esse existir. Afinal, Deus está a venda.
Tratemos do terceiro mal do século, do qual sofro atualmente. Falemos do platonismo, maldito nome dado à vontade de converter a falta em mais falta. Folha de papel branca e branda, breve e plana, pronta para ser tingida de carência e vontade. Pedestal de falsas sensações e falsas vozes que ecoam da alma para a alma. Vontade louca e imensurável de tato, olfato, sangue, prazer, cinética, sem vontade alguma. Isso, perfeito! Vontade sem vontade.
Não por acaso, temos o platonismo como filho do ócio, bem como o capitalismo. Acentuamos o platonismo pela liberdade de expressão que nos é dada naturalmente no capitalismo e, por incrível que pareça, dissertamos acerca do capitalismo por ócio.
heterônimo Tavares