AS CONFISSÕES D'OL I M PO DES C O M PA S S A D O

Por Hades ou Zeus, eu peço perdão
Talvez por ter sido tolo até então.
Querendo a minha prosa o Luar ou não,
Seja bem-vindo, caro mortal, à este limbo de podridão.

domingo, 28 de novembro de 2010

Os três males do século

Há quem diga que os grandes males do século vêm da política, ou das relações interambientais. Não ouso dizer que qualquer um dos pecados capitais possa ser um mal do século, pois seria egoísmo do século XXI. Portanto, devo lhe dizer, estimado leitor, que os três males do século se identificam no ócio, no capitalismo e no platonismo.
Pode aparentar uma relação infantil, ociosa e, então, irônica. Pois bem, que seja! Que atire a primeira pedra o mortal que não for infantil, ocioso ou irônico. E então, voltemos ao assunto de hoje. Falemos primeiramente do ócio, espectro atemporal, praga natural, fúria transcedental.
O que seria dos interesses mais vis do homem se não houvesse o ócio para criá-los? Pois então me diga, como a história bordou as colchas de retalhos humanos tingida por interesses ironicamente desumanos? O que seria desse maldito pseudo-marxismo que mancha o mundo pós-moderno se não existisse o ócio burguês? O que seria das teorias filosóficas mais fúteis e efêmeras se o ócio não existisse? Meu caro leitor, o que seria do MUNDO se o ócio não existisse? Ou acha mesmo que Deus, Alá, Caos ou seja lá quem estava ocupado quando resolveu, por uma trama do acaso, criar essa vida? E, dizendo que o ócio é algo horrível e que criou a vida, digo, por consequência, que o viver é também horrível.
Que seja. As verdades seriam muito mais simples se simplesmente, no sentido mais simples da simplicidade, não existissem.
O ócio gera a improdutividade, o descaso, a inveja, a trama.
Nesse ponto do monólogo escrito chego ao segundo mal do século que, infelizmente, me leva à uma inevitável passagem por um outro mal do século, talvez o quarto ou o quinto: o estudo das ciências sociais. Falemos do capitalismo, então!
Não me arriscarei a dissertar sobre nosso Grande Pai, o Capitalismo. Terra de ninguém, onde se ficar o bicho pega e, se correr, o bicho come. Manto de verdades e fatos que encobre nossa terrena vida de fúteis prazeres materiais e tesões palpáveis. Falso dicionário de verbetes sociais, que traz o nirvana à estância do níquel. Não falarei de Marx, de O. Wilde, da minha mãe ou da sua. Tratarei de explanar breves palavras ofegantes, que expirem o cansaço natural desse segundo mal do século. Pois bem, tratemos do assunto de forma rudimentar e totalmente primitiva. Vejo o capitalismo como somente um vulto ultrassocial que, por alguma razão natural que nem Marx, Wilde, minha mãe ou a sua poderiam explicar. Se infiltra em nossas veias como nitrogênio vital e força relações humanas totalmente verticais e, novamente, ironicamente desumanas. Força a retina humana a enxergar gigantes e fracos entre irmãos de pele, carne, osso e dólar. Força até o último tecido nervoso de nossa máquina apelidada de organismo a enxergar fraqueza naquele que não tem. Inspira uma boa parte dos pecados capitais, é capaz de apadrinhar sentimentos e, ainda por cima, manda em Deus, se esse existir. Afinal, Deus está a venda.
Tratemos do terceiro mal do século, do qual sofro atualmente. Falemos do platonismo, maldito nome dado à vontade de converter a falta em mais falta. Folha de papel branca e branda, breve e plana, pronta para ser tingida de carência e vontade. Pedestal de falsas sensações e falsas vozes que ecoam da alma para a alma. Vontade louca e imensurável de tato, olfato, sangue, prazer, cinética, sem vontade alguma. Isso, perfeito! Vontade sem vontade.
Não por acaso, temos o platonismo como filho do ócio, bem como o capitalismo. Acentuamos o platonismo pela liberdade de expressão que nos é dada naturalmente no capitalismo e, por incrível que pareça, dissertamos acerca do capitalismo por ócio.


~jft
heterônimo Tavares

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Bilateralismo sacal

Chega de abstinências. Meu fígado grita por palavras de sinceridade e cá estou, de volta.
- esse é o momento em que os duendes escondidos e travestidos com roupas natalinas comemoram a minha volta. -

Pois bem, voltemos aos supostos pressupostos filosóficos, suponho eu. O real problema da situação é que existem dois tipos de pessoas vagando pelas encostas desse mundo: o segmento de mortais que converte a carência em mais carência e os que convertem a carência em repulsão pela carência. O primeiro tipo de pessoas inferniza a vida do segundo que, por sua vez, inferniza a vida do primeiro. E assim roda a roda da vida, oe oe, haha.
Rir da situação, é o remédio. Ou vai dizer que sofrer mais e mais e ficar filosofando é a saída? Pode até ser, mas não para seres ociosos e preguiçosos como nosotros.
A questão é que os carentes escolhem a dedo as vítimas a serem alvo de todas as suas mágoas convertidas em ações sem sentido e palavras mal planejadas, e as vítimas escolhidas realmente não têm a obrigação de aturar o mal alheio. Cada um tem sua vida, cada um cuida da sua. Não é? Pois bem. O problema gerado por isso é que a carência dos platônicos, convertida em superestima dos azarados amados, evolui mais e mais com o tempo. E o pior: os desejados realmente acham que negligenciando a situação toda vão conseguir algo. Sinto-lhe dizer, caro leitor, que, caso sejas uma vítima do platonismo, de nada vai adiantar esquecer e deixar de lado. Se uma paixão tão forte nasce do NADA, por NADA e para NADA, não é no NADA que ela vai deixar de existir.


~jft
heterônimo Tavares

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Testamento de uma primavera sem gérmen - II

Chega.
Meus deuses me abandonaram. Minhas irmãs de arco e flecha largaram por mão todos os meus problemas. Minha convicção se perdeu no mar, afundou, se afogou. Minha poesia morreu, apodreceu, necrosou em cansaço e vontade de basta. CHEGA! Menelau abriu os meus olhos. OBRIGADO, MENELAU! MESMO! Devo minha vida, se é que um dia eu tive direito sobre ela, ao bravo grego que me ajudou.
O Luar tem nojo de mim.
Simples assim.
Nojo.
Nojo.
ASCO.
Se é covardia ou não, não sei. Deve ser mente fechada, restrita. Coisa de gente burra, tola, restrita. Pois que se contente com seu mundo de idiotices e mortalidades com fim. Eu, como bom Olímpico que sou, continuarei com o meu mundo de métrica e imortalidades sem fim. Continuarei rimando, proseando, sei lá. Não tenho mais para quem escrever: meu amor acabou, meu platonismo apodreceu, minha idiotice necrosou. Meu Olimpo desabou, estilhaçado em amor. Logo logo Diana e Atena se separam, e tudo volta ao normal. (Pelo amor de Zeus, não entenda isso como uma praga. Antes fosse).
Não tenho mais razão para escrever: minha inspiração escureceu. Se antes minha poesia era inspirada por um mundo pincelado pela paixão e pelo fetiche, hoje essa inspiração é sépia, engavetada, mofada. Isso! Meu amor mofou.
Não vou perder mais meus dias, horas e prazeres insistindo em um amor entre a minha percepção e a cegueira de um outro mortal qualquer.
Fará falta, sim. Meu sangue.
Meu sangue fará falta a esse mundo.

Alô?
É nessas horas que a gente diz adeus, né?
Ótimo.

Adeus.



~jft
Heterônimo Apolo

Vontades e desvontades

Não sei mais o que dizer.
As rimas fogem. A sintaxe, esgotou.
Vontade de poder olhar nos olhos do Luar com face sincera, não mais dissimulada e oblíquoa como tanto gostamos de fazer. Vontade de descobrir se os flertes metálicos e efêmeros das manhãs de primavera são direcionados ao meu olhar ou ao cimento, quem sabe. Vontade de poder conversar, lábio posto à convicção... Conversar com vocábulos, entendes? Conversar com a alma, com a dicção... Silenciar os olhares e as incertezas, as covardias.
Vontade de entender o brilho dos olhos, a secura dos lábios, a escassez dos verbos. Vontade de entender tudo isso, e só.
Desvontade de continuar assim, sem eira nem beira. Desvontade de continuar mudo, falando pelos olhos trancados em vergonha e curiosidade. Desvontade de continuar não podendo abrir os braços para algo concreto, sensível. Desvontade de continuar vivendo sem saber viver. Desvontade de não ter a segurança correndo pelas veias de platina...
Desvontade de simplificar as coisas.

Vontade de complicar a situação.



~jft
Heterônimo Tavares

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Versos soltos

De nada sei do amar
Ou da paixão.
Só sei que consistem em ditar
Mil versos em vão.

Talvez esteja eu a amar
Ou, quem sabe, de paixão a sofrer.
Afinal, a falta faz rimar
Este verso a morrer.

Muitas carnes pela vontade já se foram
E muitas outras ainda hão de morrer.
Porém, te digo que nenhum dos que em morte soam
Sangrou como sangro minha rima por você.



~jft
heterônimo Narciso

sábado, 6 de novembro de 2010

Rima efêmera

Meu verso é simples como outro qualquer.
Minha rima só reclama
o amor que não me quer.
Minha rima só reclama
o amar que não me ama,
o amor que não me quer.



~jft
heterônimo Narciso

Ame

Nunca ame um garoto
pois garotos são sujos e burros.
Nunca ame uma garota,
pois garotas são limpas e espertas.
Jamais ouse amar aos esmurros,
pois esses arrombam as carências já abertas.

Ame somente a vida, a rima,
a doutrina.
Ame somente o suor, o pudor,
o amor.
Ame o amor dos demais,
ame o amar alheio.
Jamais ame o amor dos mortais,
ame o amar de Apolo pelo centeio.

Ame sua carne, ame sua cartilagem,
ame seus pés, suas unhas,
jamais ame por mera bobagem
a carne, a cartilagem, os pés e as unhas
de outras amadas criaturas.

Ame o sofrimento, pois esse faz amar
ainda mais o doce e tedioso relento.

Ame o tártaro dos seus dentes,
ame a remela matutina de seus olhos.
Afinal, se não amar o que herdou de seus entes,
amará que outra curva dos pretendentes?

Não ame o homem,
não ame a mulher!
Ame o pólen
da flor que nada quer.

Ame o ócio, o tédio, o sono,
ame a serventia do dono!

Ame o verbo, o substantivo e
quiçá o adjetivo!
Ame o número, a matemática,
ame a sintaxe, a gramática!


~jft
heterônimo Tavares

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Versos ligeiros

Vejo minha companheira quando te admiro
e então, continuarei a te admirar.
Mas não te enganes, pois essa companheira é a ausência, irmã do frio
que faz por você me faltar.

Não quero o teu engano, certeiro,
que insiste em me intimidar.
Quero então o meu doce loureiro,
que em ramos e prazeres a Lua pode bordar.

Passa longe a certeza de ter-te por completo,
vôa como andorinha a vontade de parar
com essa paixão que de idiotices me faz repleto,
e que jaz nutrindo de utopia meu tolo olhar.

Mas então, o que me resta a fazer?
Se nem meus olhos posso conter,
se nem mesmo meus verbos posso deter,
apenas na rima devo depositar
as sílabas cansadas a derreter?
Pois bem, farei-as rimar,
farei a vontade vencer.


~jft
heterônimo Narciso

sábado, 30 de outubro de 2010

Desapareceu

Acabo de falar do Dionísio...
Pois bem... O Dionísio era mais uma farsa da minha mente.
Meus deuses, será mesmo que eu vou continuar engendrando paixões e sentimentos somente por conta de uma carência pragmática?!?!
Digam que não!
Já chega de enganar a própria inteligência! CHEGA!
Acabo de perder o chão novamente... O doce Dionísio que aparecera em meu Olimpo era falso, mais um falso amor que passou correndo pelos meus olhos...
A culpa? É minha! Exclusivamente minha! Eu que sou tolo! Tolo em todo o sentido mais tolo da tolice! Tolo de corpo e alma, de vontade e carência!
Me apaixonar por almas efêmeras deve mesmo ser a minha maldição, a minha sina.
Acho que terei que me contentar com essas decepções. Logo logo, se tornarão clichês.



~jft
heterônimo Apolo

Apareceu

Meus deuses, será mesmo que tudo está voltando a ter luz?
Acho que o Dionísio do meu Olimpo apareceu!
Só mesmo o antônimo de minha arte seria capaz de apagar os traços de Selene em minha vida... Só mesmo o doce e amargo vinho rebuscado que exala da pele oriental desse novo Dionísio que nasce em minha mente seria capaz de abrir meus olhos e voltar a minha retina cansada para uma nova era de sintaxe e rima...
E se Dionísio enxergar na minha certeza algo novo? E se Dionísio se encantar pela platina que entorna minhas flechas de precisão e parnasianismo?
Queiram os deuses que tudo isso aconteça!
Acho que mereço algo concreto dessa vez... Mereço esquecer o Luar!
Não quero mergulhar em mais um lodo de engano e solidão... Meus deuses, eu não quero! Entretanto, me falta o discernimento para controlar as minhas vontades, por mais esclarecido que eu seja!
Pois então, irei orar para a sorte. A única bênção que me resta.


~jft
heterônimo Apolo

Amor

O que tilintava na mente de Zeus
quando ousou engendrar o doce e amargo Amor?
De certo jazia no ócio e sentia ódio por seus
filhos de carne mortal, que hão de morrer por essa dor.

Não digo que o Amor é um contentamento,
muito menos ousaria dizer que é descontente.
Não digo também que não passa de um clichê apodrecimento,
mas sei que é um fluído ralo e incandescente.

Talvez divertimento ou mera distração,
reflexo da falta convertida em mais falta.
Não se sabe se é propriedade do cérebro ou do coração,
esse latifúndio cercado por arame e agridoce trauma.

Tenhas cuidado com o Amor, tolo mortal,
pois a paixão não teme a lâmina usar.
Estoca no âmago de quem a cria o mais farpado sisal
que, aos poucos e conscientemente, dilui os motivos do respirar.

Saibas que o Amor é forte, tolo mortal! É breve e certeiro.
Tão certeiro que já fez de vítimas olímpicos e titãs,
sem piedade de desfigurar o olhar de Apolo, deus arqueiro,
cegou com raiva e nojo sua amada Dafne com flechas e rimas vãs.

Portanto, não brinques com o Amar.
Não faças da beleza do Amor a lâmina da tua sanidade,
não permitas que ele se apresente com brevidade,
não deixes jamais que alguém brinque com o cerne do Amar.

Não te enganes, crendo que efêmero é o Amor,
não insultes o fluxo de vida e morte que sustenta deuses e mortais.
Muito menos dê ouvidos ao Amor que nasce do favor,
pois este, meu leitor, é traiçoeiro... Derrete em brasa as veias morais.

Devo lhe dizer que muitos tipos de amor por aí estão a vagar,
e que vários deles não passam do seco e nu Amar.
Mas não penses que estes são todos os amores da vida,
pois se pensares isso, verá no coração a mais negra e ardente ferida.

Não subestimes a força desse espectro atemporal que nos acopanha,
respeites a sabedoria do fruto adocicado do prazer.
Repito: jamais faça da carência a tua campanha,
se apenas corpo e carne tu quiseres ter.

Mas, basta de comparação,
já chega de analogias.
Afinal, o Amor, como bem disse eu em pura razão,
é feito apenas de sensação e especiarias.


~jft
heterônimo Narciso

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

BABACA

O LUAR ME ACHA BABACA!

Por deuses e mortais, o Luar me acha BABACA!
Acha mesmo que só vivo para chamar a atenção alheia!

Pois é... TUDO isso que jaz nessas páginas de podridão e desgosto agora jaz no LIXO.
Mesmo assim, continuo amando o Luar e fantasiando nossas noites de deleite sem fim!

Só sei que nada sei...


~jft
heterônimo Narciso

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Aljava desnorteada

Já é de conhecimento geral que a incerteza e a decisão me servem de Norte e Sul. Entretanto, não foi exposta nessas páginas clichês o que divide o tormento com o meu amor pelo Luar: a Bolha.

A Bolha nada mais é do que uma figuração concreta referente ao limbo de perfeição em que minhas irmãs, Atená e Diana, se encontram.
Penso que o amor entre mortais é lindo e, meus leitores, imaginem o amor entre deuses! Ou deusas, no caso.
Pois bem... Continuemos:
Por muito lutei ao longo desses últimos tempos, lutei e empunhei meu arco em nome do amor incondicional que Atená exala por Diana e que Diana exala por Atená. Cheguei a degolar Medusa, tens noção do que isso significa?!?!? Usei do mais puro elixir que escorre da métrica que me move, inspirei mortais e evoquei heróis pelo amor das duas. E continuarei derramando sangue, platina, suor e lágrima se for preciso! Vejo no pedestal em que minhas amadas irmãs se encontram o Monte Parnaso que nunca tive com o Luar! Por tudo que há de mais sagrado entre os infernos de Hades e os céus de Zeus, passando pelos mares e encostas de Poseidon, como eu amo o amor dessas duas!

O Olimpo sabe que esse amor é odiado por deuses o mortais, e as duas amantes também. Sabem, inclusive, que eu, Apolo, sou o ÚNICO imortal empunhado lâmina e escudo em nome do amor das duas! Em contrapartida, sabem também que metade do mundo mortal e do submundo aponta suas lanças de metal barato e apodrecido para as duas deusas. Pois bem, que continue assim! Afinal, nem mesmo todas as lâminas da Tessália e todas as armaduras do Mediterrâneo seriam capazes de vencer ao menos uma flecha disparada por mim.
Porém, não é tudo isso que me traz aqui. O que realmente pinica os meus pés iluminados e abençoados por Hermes, meus leitores, é a imersão dessas duas belezas olímpicas... É a preocupação que deuses e mortais sempre terão com a cegueira do amor...

A Bolha não é mais bolha, meus caros. É, então, um imenso e inerte cubo de chumbo, cobre, bronze. Estático, simétrico, pragmático! O amor dessas duas é como uma bola de neve que aglomera hipérboles e hipérbatos em meio a um descampado sem proteção...
O que me dá medo, mortal, é o fato de Afrodite não abençoar esse amor! Pelo contrário! Esse amor do qual tanto falo é guiado pela cegueira! Pela mais pura e intencionada cegueira! As flechas de Eros acertaram, além do coração de Diana e Atená, os olhares das duas! As suas retinas estão apodrecendo, juntamente com a minha aljava que as protege!
Eu não sei mais o que fazer, mero mortal... Não sei!
O que faço eu para ajudá-las? Posso somente disparar minhas flechas cravejadas de platina... Posso somente iluminar os céus com o Sol... Mas com a Bolha, jamais poderei lidar!
A Bolha é transcendental, inexorável! Deuses morreram e hão de morrer por causa dessa maldita BOLHA!
O que faço? Meus filhos, O QUE FAÇO?

Atená jogou sua lança no chão de concreto, abandonou sua armadura e pôs seu elmo de guerreira na estante do ócio. Deixou de lado Réia, Héstia, Menelau, Afrodite, Hera... E para poder acompanhá-la Narciso se tornou Apolo! Diana abandonou as filhas de Eros, ninfas; abandonou a Górgona (ainda bem!)... Deixou de lado suas flechas, rompeu seu arco de carvalho e rasgou suas vestes de seda!
O Olimpo conspira contra esse amor, e, ao lado dele, só existe o meu arco e a minha razão!
Terei que degolar deuses, meu leitor? Terei mesmo que continuar acertando âmagos e entranhas? Pois bem, continuarei! Pelo amor dessas duas irmãs, pelo encesto olímpico, eu continuarei! Continuarei arcando com as consequências de proteger duas deusas cegas... Pois foi confiado à mim o fardo de iluminar a visão de quem for preciso! Quando me assumi como Apolo, também tinha essa consciência anexada à minha sina.

Eu só peço um pouco mais de discernimento e ponderação. Afinal, as duas ainda são filhas de Zeus e irmãs da Razão. Não são tolas e desnorteadas, penso eu.


~jft

heterônimo Apolo

sábado, 23 de outubro de 2010

Sinal

Acaba de invadir meu aposento uma besta alada, do tamanho de uma cereja. Coloração apodrecida, bege. Ao bater de suas asas, disseminava poeira, pólen do cansaço. Olhos enormes, levando em conta sua proporção, cravejados como duas pulsantes hematitas que refletem a natureza animalesca de um artrópode que busca a luz.
O podre e imbecil animal invadiu meu quarto pela janela aberta, e, veloz como um relâmpago e certeiro como tal, se direcionou à luz que ilumina meus estudos neste dia tão triste e passional. Em busca da luz a besta afrontou-me, figura humana, de proporção titânica ao ver do animal. Afrontou-me, invadiu minha estância tranquila, pregou-me um susto e... Apenas seguiu em direção à luz. Animal tolo, colocou a vida em risco somente para alcançar a luz. Luz artificial, diga-se de passagem.
Por trapaça do acaso, acabou por se adentrar na espiral de um de meus cadernos. Caderno de literatura e com a página aberta nas passagens românticas, diga-se também de passagem.
Se enfurnou na espiral e exprimiu seu corpo cilíndrico armado por asas ferozes e desordenadas, e, com os movimentos limitados, começou a se debater em um diâmetro pouco maior que a própria carapaça. Ficou presa, a besta alada. Presinha, presinha.
Apressou o passo para conseguir se safar, se debateu e se contorceu em direção à outra extremidade da espiral metálica e, percebendo que o caminho seria longo demais, mexendo suas antenas como pinceladas incertas no ar, obteve a convicção de que um outro caminho de escape seria mais pertinente e eficaz.
Andou para trás.
Se debatendo ainda contra a parede de folhas e a espiral do caderno, o grotesco animal passou a se direcionar, de costas, sem enxergar nada ao seu redor pois sua visão se encontrava trêmula pela agitação, para a extremidade da espiral em que havia se adentrado.
De marcha ré, rapidamente, viu-se no caminho certo para o escape da emboscada tramada pelo destino.
Ao sair do túnel engendrado pelo acaso, o tolo animal voltou a voar desnorteado pelos ares de meu aposento. Eu, como bom humano e escroto mortal que sou, empunhei alguma coisa que avistei de primeira estância e comecei a golpear o ar inutilmente, procurando acertar a besta que me assustara. Por fim, o animal acabou acertado por meu caderno, que havia tramado a emboscada da espiral. Ainda vivo, se ergueu pelos ares e fugiu pela janela.
Nada tenho a dizer... Afinal, meu papel por aqui ainda é fazer sugestões.



~jft
heterônimo Apolo

Interface byronística

Ah, matei a charada!
Meu Luar é mais um filho de Byron!
Ao menos em sua essência, ele é. Afinal, levando em conta fatos e aparências concretas, o Luar amargo não passa de um amontoado de amônia e carbono, preenchido por um grande vácuo de convenção, sem distinção nem segmento de intelecto fértil.
O Luar é preenchido por um grande vazio, isso sim!
No fundo das suas vontades, a Lua tem as manias engendradas pelo Lorde inglês, um dos pais do Romantismo. Entretanto, essas manias se encontram bem no fundo da essência do Luar.
Talvez essas vontades eu tenha conseguido despertar, quem sabe. Pelo menos essa era a minha vontade.



~jft
heterônimo Narciso

Podridão

Que tolisse! Imaginei o quão belo seria se me juntasse ao Luar... E seria! Seria lindo... De estética! Seria talvez uma das mais raras e belas cenas de amor que esse mundo de mortais já testemunhou... O amor e o deleite entre Apolo e Selene. Seria, com a certeza que tenho, uma verdadeira fábula de beleza. Seria esplêndido o amor. Aliás, o amor não! A estética.
Toda a beleza, todo o deleite, todo o furor, toda a saliva... Seria tudo belo, perfeito! Mas seria apenas estético... Seria tudo oco, vazio!
Imaginei as cenas de amor... Meus deuses, nem mesmo Afrodite com sua pele de algodão e cabelos sedosos e Ares com seus músculos exuberantes e sua testosterona exalada por suor agridoce seriam capazes de igualar a beleza dessa cena de amor!
Seria infinitamente belo! Mas... Puramente estético!
Seria tudo vazio! Vazio como o que o Luar sente por mim.



~jft
heterônimo Apolo

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Asco

Não sei dizer se o que borbulha em mim é amor ou ódio... É tão difícil identificar! Maldito Zeus... Separou os dois sentimentos opostos por uma linha tênue... Quase se fundem!
É indecisão. Agora só sei que fui burro. Burro em todo o sentido mais burro da burrice. Fiz da minha vida um mar de poesia e prosa, com margens e encostas de sofrimento... Baseado em quê? Meus deuses, fiz tudo isso baseado em quê?!? Fui idiota, cego! Achei que o Luar ao menos havia se interessado por mim! Meus deuses, ele sentiu medo! Medo de incompreensão, de covardia de quem não tem coragem de sair da zona de conforto! O Luar jamais compreendeu meus dizeres, minhas rimas, minhas analogias, minhas hipérboles! O Luar não me compreende e não quer me compreender!
Os olhares que alimentaram meu desejo foram de quem quer entender algo mas não consegue! As palavras e as aceitações breves foram apenas válvulas de escape de quem não sabe o que fazer! Eu fui burro! Raiva de mim! Meus deuses, eu não sou idiota! Meu Olimpo, eu não sou tolo!
Agora não sei o que se passa! Será que ainda há curiosidade no âmago da Lua? Será que houve curiosidade? Meus deuses, houve algo? Pelos céus de concórdia, digam que sim! Digam que minha poesia não é vazia! Digam que eu não fiz do parnasianismo uma ferramenta inútil! Digam, por tudo que há de mais sagrado na Terra, que tudo isso não foi oco, vazio! E se foi? Meus deuses, e se todo o esforço foi um grande engano? E se toda a minha nova essência, que adotei somente para atrair os olhos da Lua, é vazia e fútil? Então, eu sou fútil!
Meus deuses, eu sou fútil?
Sou idiota?
Sou burro ou apenas fui?
E, se fui, quando voltarei a ser?
E então, quando deixarei de ser?

Não sei se houve amor ou medo... Não sei se houve entendimento ou incompreensão. Não sei se houve curiosidade ou burrice... Não sei nem o porquê de tudo isso ter acontecido! Não sei o que sinto ou o que deveria sentir! Meus deuses, quanta incerteza em um olímpico só!

Terei que cortar meus olhos ou meu papel?
Portarei em minha cabeça o ramo de louro ou meu orgulho?

Responda-me, covarde! Responda-me!
Por que não respondes, minha alma?

ALMA COVARDE! LUA COVARDE! DESTINO COVARDE! OLHAR COVARDE!



~jft
heterônimo Apolo

Coincidência

"É um ser angustiado que não percebeu em sua angústia e agonia a possibilidade de mudança, mesmo que para isso houvesse sofrimento e dor. Preferiu a acomodação e o posterior rebaixamento à condição subumana ao invés de subtrair de seu passado, de filho dominado, de empregado subordinado, de sua condição de pequeno-burguês decadente, as condições necessárias para sua libertação."
~ Análise da obra "A Metamorfose", de Kafka


Incrível, não?


~jft
heterônimo Apolo

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Ganhei um loureiro.

Raiva.
Não sei de quem nem de quê, mas é raiva.
Amarga como sândalo e mirra, seda do oriente... Amarga como a amarelada cor da Lua apodrecida... Repuxa minhas entranhas em necrose de cansaço.
Raiva, engendrada pelo EGO de um deus que se vê como Sol. Engendrada pela inconsciência de todo um Olimpo burro, tolo, desavisado!
Já se foram os tempos em que os deuses comandavam os céus e os solos desta Terra sem fim. Já se foram os tempos em que os olímpicos controlavam os desejos e as sinas desse mundo sem Zeus nem Hades.
Pois bem... E a maldição se cumpriu. E não é mesmo que minha Dafne se converteu em um oco e podre loureiro? Meus deuses, o maldito Eros venceu!
Que prepotência a minha... Cheguei a acreditar que, por ter destroçado uma serpente de proporções continentais, poderia derrotar uma convicção oblíquoa e dissimulada qualquer, a vagar pelas terras titânicas que abençoo com minha Luz!
Que estupidez... Meus deuses, que burrice! Apolo, Senhor da certeza, da clareza, da destreza... Errou no disparo de uma flecha que se prolongou por um ano e mais alguns meses! Errou o alvo? Errou a direção? Errou o metal? Errou o olho de mira? Não sei! Só sei que errei!
A maldita flecha acabou por contornar o Olimpo e acertar as minhas costas.
Minha ninfa, outrora chamada de Luar e futuramente retratada como Titã sujo de pólvora e enxofre, acaba de se tornar um pé de loureiro! Loureiro oco, podre, sem folhagens e nem raízes! Vai descascar aos poucos, com bicadas e mais bicadas de corvos e urubus!
Vai perder o xilema e o floema até secar em amargura... Ah, vai!
Se um dia houve amor neste deus que vos escreve, agora há ódio! E tenha certeza de que se apenas a metade do amor que havia fosse convertida em raiva, já seria ela o suficiente para desabar Esparta, Atenas e Tróia! Seria ela suficiente para secar as águas turvas do Egeu, do Adriático e do Mediterrâneo! Seria ela capaz de apagar a luz das estrelas e doá-la para a escuridão das cavernas em que se refugiaram os titãs na luta contra Héracles! E é capaz de muito mais... É capaz de tanto, que agora confunde, mais do que o próprio Luar um dia chegou a confundir, a mente mais iluminada e esclarecida dos céus.
Essa raiva me confunde.
"É... É isso que dá flertar com gente burra."
~ Atena
~jft
heterônimo Apolo

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

E se...

Se até agora eu ao menos tinha um conceito de certeza, devo dizer que até isso se esvaiu. Meu chão desabou... Meus deuses, como pude ser tão TOLO?
Fundamentei toda a minha poesia na esperança de que o Luar ao menos se interessava... Mas, como disse Menelau, e se nada foi lido? E se toda a história de olhar e interesse pela minha métrica foi inventada? E se nunca houve interesse pelos meus escritos? E se tudo que ME alimenta há meses tenha sido uma nua e crua FALSIDADE?
Não cheguei a pensar que a Lua pudesse ser tão vil assim... Não sei se é! Porém, a forma com que Menelau abriu meus olhos ao dizer que havia a possibilidade de o Luar não ter lido nada meu e apenas ter aceitado e forjado algo, me assustou! Menelau tratou disso com frieza, apatia!
Menelau disse isso, desabou meu chão com normalidade! E, se há uma coisa que me assusta MUITO é a normalidade, a tranquilidade! Menelau disse isso com tranquilidade! Nessas horas, a tranquilidade serve de prova e argumento fixo e perceptível!
Meus deuses... Como não pensei em uma hipótese tão infantil?
E se o Luar fundamentou todas essas reações e interesses pelos meus papéis apenas por forjar algo? Santos olímpicos, aí sim, reconheceria que eu SOU UM IDIOTA!
E se tudo que escrevi, as mais de 80 páginas de caderno perdidas no mundo, estes textos que dão forma à este espaço de desabafo, tudo, foi escrito por nada?
E se o Luar foi vil, em todo o sentido vil da vileza?
E se a Lua não se interessa por nada e é peçonhenta como a serpente Píton? E se tudo isso foi um teatro? E se, ao invés de dramaturgo, eu tenha sido a marionete?
Meus deuses, que falha! Que falha a minha fundamentar toda essa vida de sentimentos em algo que não é certo, em algo que escondia uma hipótese desconhecida porém letal!
E se tudo isso está no LIXO?
E se tudo foi feito por NADA?
Serei eu um LIXO? Serei eu um belo, estancado e vazio NADA?
Mas que covardia do destino! Que covardia de Zeus! Que covardia do acaso!
São covardes, sim!
São covardes pois estocaram uma lança afiada e farpada em meu âmago olímpico, estraçalhando o fluído ralo de convicção que ainda circulava pelas minhas veias e artérias!
Foram difamados heróis gregos, mestres parnasianos, românticos, árcades e naturalistas! A filosofia empirista foi queimada viva! A minha rica descrição dos fatos foi amassada como papel barato e arremessada na lixeira de um cigano oblíquo e dissimulado!

Mas, meus deuses... E se tudo foi lido?
E se tudo foi testado, foi verdadeiro?
E se o Luar realmente se interessou por minha poesia?
E se a Lua realmente é incomodada pela farpa da curiosidade?

Que dúvida horrível, meus deuses!
Nem mesmo vagar pelas terras de tártaro e enxofre que margeiam Hades seria tão cruel! Nem mesmo lutar contra leões, minotauros ou górgonas seria tão cruel! Muito mais cruel e vil do que travar batalhas e derramar sangue por obra do destino, é derramar rimas e descrições em uma jarra que não se sabe se é de barro ou de ouro, se tem fundo ou se é infinita!
Não há castigo pior para um deus do que ter toda a sua VIDA de poesia entre um abismo de decepção e um céu de concórdia! Não é justo que coloquem toda a minha poesia em cima de uma linha tênue que separa o fracasso do sucesso!
Não é justo!

Não sei a quem mais clamar e pedir ajuda... Que Luar forte!
Resiste às tramas de Diana, Apolo, Atena, Hera, Menelau, Réia, Medusa, Afrodite... Resiste à poesia metrificada do deus que criou a luz!
A Lua resiste aos encantos do Sol!
Como poderei eu afrontar toda essa bravura e resistência?
Como poderei dar continuidade à minha obra, se tudo que constava em minha poesia já foi gasto?
Como poderei continuar apostando a sorte no Luar se já gastei com ele minha hipérbole barroca, meu adjetivo naturalista, meu ócio parnasiano, meu bucolismo árcade e minha mitologia classicista? Minha aljava de flechas está vazia!
É chegada a hora de trocar o arco e as flechas pela espada?
É chegada a hora de usar a lâmina?

E SE EU USAR A LÂMINA?



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heterônimo Apolo

terça-feira, 19 de outubro de 2010

PARABÉNS!




Um ano e três meses de Luar...

Que venham mais e mais dias de sofrimento!



~jft
heterônimo Narciso

Paradigma harmônico e vital

Quando, em toda a história do Olimpo, um deus enxergou na incerteza a única certeza de sua vida?
Pois bem, exímios mortais, é o que sinto no momento. Se sou visto por vocês como o Senhor da razão e da certeza, devo lhes dizer que, feliz ou infelizmente, toda a minha certeza reside na mais pura, nua e crua incerteza.
Quando troco olhares com o Luar pelas auroras ou tardes da vida, não sei se os minutos passam regados por desgosto ou curiosidade. Hoje mesmo, acabei de trocar olhares com minha Lua. Como dizem alguns de meus oráculos, meu amargo amor sente a estocada da curiosidade, mas, confuso como é e deve ser, apenas releva este mar de dizeres que esbanjo em métrica e sintaxe.
Pois bem, já passei a mensagem que deveria passar nesta tarde de céu azulado como olhar de criança e de sol escaldante como desejo de adolescente.
O mundo deve mesmo estar de pernas para o ar... Se Apolo, deus da certeza, reconhece ter sua razão baseada em uma pragmática indecisão, as coisas realmente devem andar

d es c o mpa s s ad as...



~jft
heterônimo Apolo

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Desejo simplório

Se perguntassem à homens e deuses o que mais desejam, as respostas seriam variadas, porém, semelhantes. Perseu e Héracles, bem como Ares, Hermes, Hefesto ou até mesmo Hades responderiam algo relacionado à vitória de uma batalha ou o derramamento do sangue inimigo: Perseu clamaria pela morte de Medusa; Héracles, pelo triunfo em Creta; Ares desejaria a sorte e a vitória para o Peloponeso; Hermes, em nome da paz em Milos; Hefesto clamaria pelo bem das forças de Zeus e Hades apostaria a sorte no poder de seus titãs. Pois bem. Se perguntassem à Ártemis, a deusa da caça responderia com o desejo natural e belo de abençoar os seres animados da Ática. Atena prezaria pelo bem-estar da razão como luz na mente humana, e Menelau de Esparta responderia a berros e fúrias que deseja o retorno de Helena, junto com o cadáver de Páris.
Se perguntassem à Jacinto, o jovem diria que o que mais deseja é lançar discos e lanças até ultrapassarem a linha do horizonte, em direção ao Sol. Respostas previsíveis, de certa forma.

Se me fizessem essa mesma pergunta, não responderia pelo bem do arco e da flecha em mãos hábeis e dotadas de destreza invejável; não clamaria pela razão resplandecente nos céus da Ática e nas encostas do Egeu; jamais desejaria o derramamento de sangue mortal ou titânico (com excessões). Talvez eu cogitaria acerca da volta de Jacinto aos meus braços, rapaz que teve a vida retirada por trapaça de seu pai, Eolo. Poderia refletir acerca do desejo de fazer as pazes com Dionísio nas artes humanas, mas, de uma forma ou de outra, continuaria eu sendo o inventor da métrica engajada e Baco sendo o arquiteto da poesia descompassada e descompromissada. Portanto, não tenho dúvidas, como bom Senhor da razão e da clareza que sou para homens e deuses, de que pediria atenção. Atenção breve, singela. Algo a mais que um sorriso amarrotado ou uma efêmera troca de olhares na aurora. Não pediria de momentâneo o deleite com o Luar pelas rochosas terras do Mediterrâneo, mas tenho certeza de que pediria apenas a consideração de um mortal desinteressado para com uma divindade poeta. Pode aparentar infantil ou clichê, como já foi dito aqui, mas, a atenção da Lua é tudo que me interessa. Me interessa mais do que ter em mãos uma cítara de casco de tartaruga do Adriático ou uma aljava de marfim mouro. Afinal, essa gotícula de atenção está separada, por uma linha tênue, do retorno da minha essência.



~jft
heterônimo Apolo

Maldição


Que fique nítido, amargo mortal:
Caso for ignorado todo o meu amor,
Tu não mais terás certeza de um bom final
Ao lado de qualquer filha de Afrodite, agora dona da dor.

Se minha aljava de métrica a ti não alcançou,
Nenhum artifício mais conseguirá te alcançar.
Deixo claro que se minha flecha a ti não acertou,
Nenhuma lâmina mais te acertará.

Terás em tua sina uma única certeza, uma única nitidez:
Serás infeliz como titãs caso deixes de lado meu amar.
Sofrerás como merece alguém que me fez
Rimar e rimar, mas em sangue e decepção me afogar.

Se será um corte na virgem pele, ou quem sabe uma boa queimadura,
Quem decidirá será Hades, âmago da tortura.
Será o dono de tua sina o deus do submundo e da amargura,
E vingarás em nome de minha cítara toda essa estrofe de ternura.

Sonharás com meu olhar de esmeralda nas mais gélidas e escapísticas noites,
Tranquilidade durante o sono nunca mais voltarás a ter.
E então lhe aviso, amargo Luar, que firmo em compromisso os meus licores
Destilados por uma carne que terás que conter.

Afrodite também cuidará de ti, caso seja condenado à mim o desprezo.
Fica destinada à deusa a clichê maldição de Eros:
A maldita criança alada acertará a profusão de seu molejo,
Fazendo de todos os mortais ao teu redor secos e vazios meros.

Te afogarás em um breu atlântico sem fim,
Se decidires ignorar a poesia que exala de mim.
Poseidon há de te estraçalhar e perfumar com doce jasmim
Teu corpo oriental caso tu não queiras mais ter em mãos meu corpo de alecrim.

Por fim, terei eu o prazer de te acertar
Por entre teu bulbo cardíaco, se este não pulsar
Pela doce harmonia que deve haver entre nosso olhar,
A mais certeira e cravejada flecha em nome do rimar.

Pois então, doce Lua, um último apelo venho a fazer:
Ames o teu Apolo, olímpico que terá de deter
A felicidade em tua sina trancafiada...
Pois sozinho não hei de sofrer.


~jft
heterônimo Apolo

Rimas infantis (brincando com o óbvio)

Faça o sândalo escorrer
Por entre o desejo reprimido
De um mortal que tenta ser
Esquecido pelo amargo atrevido.

Veja a mirra queimar em brasa
As forjas deste amor que não tem começo nem fim.
Sinta a viscosa paixão banhada em prata rasa
Que encandesce, escurece, apodrece dentro de mim.

Dançe por entre as estrofes clichês
Desta poesia previsível como a doce aurora.
A próxima rima vem de vocês,
Amargas adríades que entornam meu âmago que chora.

Divirta-se com meu amadorismo,
Satirize o que eu chamo de poesia.
Digo-lhe que entorno sinestesia em ápice de heroísmo,
Portanto, cuidado! Para ter teu corpo tudo eu faria.

Por muitas linhas ainda posso descrever
Os aromas e as angústias que em mentira se fazem verdadeiras.
Porém, se esgota a vontade de permanecer,
De insistir em amar esta podre alma sem eira nem beira.

Alma cigana, inspira meu sangue pelas veias a correr!
Queiram os deuses que um dia há de me acolher
Esta amarga seda de incerto cerne a se deter
Em uma prisão de sina certeira, estimada em se conter!



~jft
heterônimo Narciso

Cartas à Menelau



I

Tens os deuses olímpicos da razão te dizendo o que deves fazer: seguir em frente com teu amor por Helena.
Atenas e eu criamos o que os mortais apelidam de razão!
Se eu tivesse desistido do Luar há tempos, hoje não seria um deus. O Luar recusou meus versos há alguns dias atrás, mas eu jamais desistirei!
Meu caro grego, não desistas, nunca! Tens a bênção farpada de Atenas, que entorna teu escudo e forja tua lâmina. Tens a bênção de minha arte, que muito poderá te ajudar na conquista.
Não deixes de lado esta paixão, pois ela nutre tua vida! Se eu tivesse desistido do meu amor pela Lua, não mais estaria aqui! Pois, como mero apaixonados e tolos que somos, o que nos mantém em pé e o sofrimento! Então, que sofremos mais e mais!
Que venha sofrimento suficiente para engasgar nossas gargantas em um bulbo negro de decepção e amargura, que venha sofrimento possível de rachar nossas unhas em sangue e medo! Que venha todo esse sofrimento, e que o próprio sofrimento nos nutra no caminho contra a dor!
Somos movidos pela decepção, e somos movidos para superá-la.
Meu grego, não desista! Encontre em minha métrica a vontade final que lhe faltava para voltar à luta contra Tróia!


II

Te ajudo pois eu sei o que se passa com você. Eu sei, mais do que ninguém entre os céus e o mundo de Hades, o que é amar e não ser correspondido.
Mas meu querido grego, pense só: o teu caso é menos pior que o meu. Tu ao menos tens a certeza do que acontece, tens nítida a imagem que teu amor tem de ti. Eu não sei de nada, escrevo às escuras, sem saber o que o Luar pensa ou sem saber o que o Luar quer.



~jft
heterônimo Apolo

Felicidade em ser Apolo

Nem mesmo se as Adríades cantassem,
Ou talvez se Diana sua lira tocasse,
A Ática expiraria tanta felicidade que, pasmem
Meus amargos leitores, sinto ao escrever em nova face.

Já é passada a hora de empunhar
O arco cravejado de platina que encanta
Minhas deusas agora a aguardar
O triunfo de minha poesia, que por entre as rimas, dança.

Fiz do sangue platina pura pelas veias a correr.
Farei da beleza dionisíaca,
Bravura apolínea a se contorcer.

Como poeta armado de certeza e razão
Faço a rima se entreter por entre as linhas, faço-as dançar.
O carbono, que se faz de lâmina e trovão,
Entalha na folha minha essência, simples a cortar.



~jft
heterônimo Apolo

Congestão

Passou-se mais uma semana de confusão, difusão, cansaço, escapismo. Por vezes cheguei a deixar os céus de lado, voltar à minha estância terrena... Mas, novamente, de nada adiantou. Cheguei a forjar uma convicção provisória, enganação pura. Muitas variáveis atuaram sobre a constante cinética que ouso chamar de vida. Deuses, titãs e mortais me procuraram, e por minha sanidade clamaram! Cheguei a decidir abandonar essa falsa verdade que vejo no Luar... Meus deuses, cheguei a me convencer de que nada disso valeria a pena! Bordei um manto de convicções e certezas, tingido pela decisão de viver livre dessa moléstia chamada amor! E não é que o tal manto bordado pelas minhas mãos havia ficado belo e até com bainhas nas margens? Era dotado de mosaicos entalhados em linha macia e amarga, alternando flores estarrecidas e folhagens apodrecidas com retalhos de consciência. Por muito tempo (o suficiente para meu âmago voltar a respirar) o tal manto cobriu meus olhos e minha sina, tornando-os opacos.

Nota: O que vem escrito a seguir é clichê, previsível, desgastante e puramente ridículo.

O primeiro passo do Luar no degrau metálico das escadas descosturou as primeiras remendas da minha convicção. Não havia avistado a Lua ainda, mas, ao olhar no relógio e marcar a sua hora de chegada que aguardo todas as manhãs, senti o ponteiro afrouxar outras costuras do manto que me mantinha aquecido em um limbo de razão. Mesmo assim, o manto ainda me cobria.

Nota: Segue a minha parte preferida dos fatos matinais.

O olhar da Lua se encontrou com o meu. Nem se eu evocasse Héracles e usasse sua armadura para lustrar minha rima; nem mesmo se eu usasse a lâmina de Perseu para afiar meus versos; talvez nem se viessem ao papel todos os titãs engendrados por Hades, dispostos a lutar por meu grafite e por minha grafia, seria eu alguém capaz de descrever o teu olhar e o que borbulhou por entre as minhas entranhas apodrecidas. Teu olhar mesclou desprezo, curiosidade, indecisão e nojo à um aroma amargo de sândalo e mirra torrada, que efervesceu em minha retina sabores e sensações humanamente reservados ao paladar, jamais à visão. O teu olhar farpado como arame trançado em serrote de pinho lascado, afiado como cimitarra de espartano apontada à Tróia e cortante como papel certeiro que abre lasca ensanguentada na pele virgem, descosturou em nacos de pano e certezas oblíquas o meu manto bordado pela razão que possuí ao pensar em desistir da Lua. Esquartejou com navalhas de ônix toda a minha convicção em deixar o amor para trás. Tudo voltou à estaca zero. Entretanto, as peças e as técnicas do jogo mudaram.



~jft

heterônimo Narciso