AS CONFISSÕES D'OL I M PO DES C O M PA S S A D O

Por Hades ou Zeus, eu peço perdão
Talvez por ter sido tolo até então.
Querendo a minha prosa o Luar ou não,
Seja bem-vindo, caro mortal, à este limbo de podridão.

domingo, 28 de novembro de 2010

Os três males do século

Há quem diga que os grandes males do século vêm da política, ou das relações interambientais. Não ouso dizer que qualquer um dos pecados capitais possa ser um mal do século, pois seria egoísmo do século XXI. Portanto, devo lhe dizer, estimado leitor, que os três males do século se identificam no ócio, no capitalismo e no platonismo.
Pode aparentar uma relação infantil, ociosa e, então, irônica. Pois bem, que seja! Que atire a primeira pedra o mortal que não for infantil, ocioso ou irônico. E então, voltemos ao assunto de hoje. Falemos primeiramente do ócio, espectro atemporal, praga natural, fúria transcedental.
O que seria dos interesses mais vis do homem se não houvesse o ócio para criá-los? Pois então me diga, como a história bordou as colchas de retalhos humanos tingida por interesses ironicamente desumanos? O que seria desse maldito pseudo-marxismo que mancha o mundo pós-moderno se não existisse o ócio burguês? O que seria das teorias filosóficas mais fúteis e efêmeras se o ócio não existisse? Meu caro leitor, o que seria do MUNDO se o ócio não existisse? Ou acha mesmo que Deus, Alá, Caos ou seja lá quem estava ocupado quando resolveu, por uma trama do acaso, criar essa vida? E, dizendo que o ócio é algo horrível e que criou a vida, digo, por consequência, que o viver é também horrível.
Que seja. As verdades seriam muito mais simples se simplesmente, no sentido mais simples da simplicidade, não existissem.
O ócio gera a improdutividade, o descaso, a inveja, a trama.
Nesse ponto do monólogo escrito chego ao segundo mal do século que, infelizmente, me leva à uma inevitável passagem por um outro mal do século, talvez o quarto ou o quinto: o estudo das ciências sociais. Falemos do capitalismo, então!
Não me arriscarei a dissertar sobre nosso Grande Pai, o Capitalismo. Terra de ninguém, onde se ficar o bicho pega e, se correr, o bicho come. Manto de verdades e fatos que encobre nossa terrena vida de fúteis prazeres materiais e tesões palpáveis. Falso dicionário de verbetes sociais, que traz o nirvana à estância do níquel. Não falarei de Marx, de O. Wilde, da minha mãe ou da sua. Tratarei de explanar breves palavras ofegantes, que expirem o cansaço natural desse segundo mal do século. Pois bem, tratemos do assunto de forma rudimentar e totalmente primitiva. Vejo o capitalismo como somente um vulto ultrassocial que, por alguma razão natural que nem Marx, Wilde, minha mãe ou a sua poderiam explicar. Se infiltra em nossas veias como nitrogênio vital e força relações humanas totalmente verticais e, novamente, ironicamente desumanas. Força a retina humana a enxergar gigantes e fracos entre irmãos de pele, carne, osso e dólar. Força até o último tecido nervoso de nossa máquina apelidada de organismo a enxergar fraqueza naquele que não tem. Inspira uma boa parte dos pecados capitais, é capaz de apadrinhar sentimentos e, ainda por cima, manda em Deus, se esse existir. Afinal, Deus está a venda.
Tratemos do terceiro mal do século, do qual sofro atualmente. Falemos do platonismo, maldito nome dado à vontade de converter a falta em mais falta. Folha de papel branca e branda, breve e plana, pronta para ser tingida de carência e vontade. Pedestal de falsas sensações e falsas vozes que ecoam da alma para a alma. Vontade louca e imensurável de tato, olfato, sangue, prazer, cinética, sem vontade alguma. Isso, perfeito! Vontade sem vontade.
Não por acaso, temos o platonismo como filho do ócio, bem como o capitalismo. Acentuamos o platonismo pela liberdade de expressão que nos é dada naturalmente no capitalismo e, por incrível que pareça, dissertamos acerca do capitalismo por ócio.


~jft
heterônimo Tavares

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Bilateralismo sacal

Chega de abstinências. Meu fígado grita por palavras de sinceridade e cá estou, de volta.
- esse é o momento em que os duendes escondidos e travestidos com roupas natalinas comemoram a minha volta. -

Pois bem, voltemos aos supostos pressupostos filosóficos, suponho eu. O real problema da situação é que existem dois tipos de pessoas vagando pelas encostas desse mundo: o segmento de mortais que converte a carência em mais carência e os que convertem a carência em repulsão pela carência. O primeiro tipo de pessoas inferniza a vida do segundo que, por sua vez, inferniza a vida do primeiro. E assim roda a roda da vida, oe oe, haha.
Rir da situação, é o remédio. Ou vai dizer que sofrer mais e mais e ficar filosofando é a saída? Pode até ser, mas não para seres ociosos e preguiçosos como nosotros.
A questão é que os carentes escolhem a dedo as vítimas a serem alvo de todas as suas mágoas convertidas em ações sem sentido e palavras mal planejadas, e as vítimas escolhidas realmente não têm a obrigação de aturar o mal alheio. Cada um tem sua vida, cada um cuida da sua. Não é? Pois bem. O problema gerado por isso é que a carência dos platônicos, convertida em superestima dos azarados amados, evolui mais e mais com o tempo. E o pior: os desejados realmente acham que negligenciando a situação toda vão conseguir algo. Sinto-lhe dizer, caro leitor, que, caso sejas uma vítima do platonismo, de nada vai adiantar esquecer e deixar de lado. Se uma paixão tão forte nasce do NADA, por NADA e para NADA, não é no NADA que ela vai deixar de existir.


~jft
heterônimo Tavares

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

Testamento de uma primavera sem gérmen - II

Chega.
Meus deuses me abandonaram. Minhas irmãs de arco e flecha largaram por mão todos os meus problemas. Minha convicção se perdeu no mar, afundou, se afogou. Minha poesia morreu, apodreceu, necrosou em cansaço e vontade de basta. CHEGA! Menelau abriu os meus olhos. OBRIGADO, MENELAU! MESMO! Devo minha vida, se é que um dia eu tive direito sobre ela, ao bravo grego que me ajudou.
O Luar tem nojo de mim.
Simples assim.
Nojo.
Nojo.
ASCO.
Se é covardia ou não, não sei. Deve ser mente fechada, restrita. Coisa de gente burra, tola, restrita. Pois que se contente com seu mundo de idiotices e mortalidades com fim. Eu, como bom Olímpico que sou, continuarei com o meu mundo de métrica e imortalidades sem fim. Continuarei rimando, proseando, sei lá. Não tenho mais para quem escrever: meu amor acabou, meu platonismo apodreceu, minha idiotice necrosou. Meu Olimpo desabou, estilhaçado em amor. Logo logo Diana e Atena se separam, e tudo volta ao normal. (Pelo amor de Zeus, não entenda isso como uma praga. Antes fosse).
Não tenho mais razão para escrever: minha inspiração escureceu. Se antes minha poesia era inspirada por um mundo pincelado pela paixão e pelo fetiche, hoje essa inspiração é sépia, engavetada, mofada. Isso! Meu amor mofou.
Não vou perder mais meus dias, horas e prazeres insistindo em um amor entre a minha percepção e a cegueira de um outro mortal qualquer.
Fará falta, sim. Meu sangue.
Meu sangue fará falta a esse mundo.

Alô?
É nessas horas que a gente diz adeus, né?
Ótimo.

Adeus.



~jft
Heterônimo Apolo

Vontades e desvontades

Não sei mais o que dizer.
As rimas fogem. A sintaxe, esgotou.
Vontade de poder olhar nos olhos do Luar com face sincera, não mais dissimulada e oblíquoa como tanto gostamos de fazer. Vontade de descobrir se os flertes metálicos e efêmeros das manhãs de primavera são direcionados ao meu olhar ou ao cimento, quem sabe. Vontade de poder conversar, lábio posto à convicção... Conversar com vocábulos, entendes? Conversar com a alma, com a dicção... Silenciar os olhares e as incertezas, as covardias.
Vontade de entender o brilho dos olhos, a secura dos lábios, a escassez dos verbos. Vontade de entender tudo isso, e só.
Desvontade de continuar assim, sem eira nem beira. Desvontade de continuar mudo, falando pelos olhos trancados em vergonha e curiosidade. Desvontade de continuar não podendo abrir os braços para algo concreto, sensível. Desvontade de continuar vivendo sem saber viver. Desvontade de não ter a segurança correndo pelas veias de platina...
Desvontade de simplificar as coisas.

Vontade de complicar a situação.



~jft
Heterônimo Tavares

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Versos soltos

De nada sei do amar
Ou da paixão.
Só sei que consistem em ditar
Mil versos em vão.

Talvez esteja eu a amar
Ou, quem sabe, de paixão a sofrer.
Afinal, a falta faz rimar
Este verso a morrer.

Muitas carnes pela vontade já se foram
E muitas outras ainda hão de morrer.
Porém, te digo que nenhum dos que em morte soam
Sangrou como sangro minha rima por você.



~jft
heterônimo Narciso

sábado, 6 de novembro de 2010

Rima efêmera

Meu verso é simples como outro qualquer.
Minha rima só reclama
o amor que não me quer.
Minha rima só reclama
o amar que não me ama,
o amor que não me quer.



~jft
heterônimo Narciso

Ame

Nunca ame um garoto
pois garotos são sujos e burros.
Nunca ame uma garota,
pois garotas são limpas e espertas.
Jamais ouse amar aos esmurros,
pois esses arrombam as carências já abertas.

Ame somente a vida, a rima,
a doutrina.
Ame somente o suor, o pudor,
o amor.
Ame o amor dos demais,
ame o amar alheio.
Jamais ame o amor dos mortais,
ame o amar de Apolo pelo centeio.

Ame sua carne, ame sua cartilagem,
ame seus pés, suas unhas,
jamais ame por mera bobagem
a carne, a cartilagem, os pés e as unhas
de outras amadas criaturas.

Ame o sofrimento, pois esse faz amar
ainda mais o doce e tedioso relento.

Ame o tártaro dos seus dentes,
ame a remela matutina de seus olhos.
Afinal, se não amar o que herdou de seus entes,
amará que outra curva dos pretendentes?

Não ame o homem,
não ame a mulher!
Ame o pólen
da flor que nada quer.

Ame o ócio, o tédio, o sono,
ame a serventia do dono!

Ame o verbo, o substantivo e
quiçá o adjetivo!
Ame o número, a matemática,
ame a sintaxe, a gramática!


~jft
heterônimo Tavares

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Versos ligeiros

Vejo minha companheira quando te admiro
e então, continuarei a te admirar.
Mas não te enganes, pois essa companheira é a ausência, irmã do frio
que faz por você me faltar.

Não quero o teu engano, certeiro,
que insiste em me intimidar.
Quero então o meu doce loureiro,
que em ramos e prazeres a Lua pode bordar.

Passa longe a certeza de ter-te por completo,
vôa como andorinha a vontade de parar
com essa paixão que de idiotices me faz repleto,
e que jaz nutrindo de utopia meu tolo olhar.

Mas então, o que me resta a fazer?
Se nem meus olhos posso conter,
se nem mesmo meus verbos posso deter,
apenas na rima devo depositar
as sílabas cansadas a derreter?
Pois bem, farei-as rimar,
farei a vontade vencer.


~jft
heterônimo Narciso